Há algo de magnífico no "não", no impossível, no alcançável pois perante eles comportamos-nos como os meninos pequeninos que já não devíamos ser, passando a desejar com todo o nosso ser aquilo que até há bem pouco tempo era irrelevante, dispensável. O porquê de funcionarmos assim? Pura natureza humana: precisamos de objectivos, metas, "quereres" e se não os temos estagnamos, paramos no tempo e deixamos de evoluir, então inventámos esta forma de "movimento" que nos leva a querer o que não temos, o que não quisemos e o que já tivemos mas perdemos, sendo este último, o "querer" mais incomodativo.
Por norma, só queremos aquilo que em tempos tivemos se esse objecto de desejo nos remete para um tempo em que éramos felizes, realizados, completos por dentro. Quem diz objecto pode muito bem dizer pessoa (acima de tudo pessoa), colocando em outrem a imagem da felicidade de tempos passados conotando-o/a com uma carga emocional pesadíssima, carga essa com que não temos o direito de carregar ninguém e com a qual ninguém deve nunca ser conotado pois é de uma injustiça tremenda ser a fonte da felicidade de alguém que nos rejeitou, alguém por quem passámos e que não nos deixou ou fez ficar.
Sei que é um tremendo cliché dizer que só damos valor ao que temos quando nos vemos privados da sua existência mas não é esta uma das grandes verdades do Universo? É que só sente saudades das aulas às 8h da manhã quando se começa a trabalhar sem interrupções durante o dia; só se sente falta do calor reconfortante ou sufocante do Verão quando se apanha uma valente molha ou se tem as mãos num permanente estado de congelação; só sente falta daquela pessoa insuportável, carente, pedinchona e sensível quando vemos que essa mesma pessoa era engraçada, conversadora, carinhosa, ombro amigo, amor, chão. E ao constatarmos que o enjoo em nós sentido por causa dessa mesma pessoa não passava de cansaço, exaustão, tempo a mais juntos, descobrimos que o afastamento foi a melhor das soluções ainda que a mais dolorosa e, agora, arriscamos dizer que todos os dias é como se o sol nascesse directamente do traseiro deste indivíduo que até há bem pouco nem com o seu melhor fato nos agradava.
Que o ser humano é estúpido, egoísta e funciona muitas vezes com um imenso retardamento já não é novidade para ninguém mas bem que podia ir aprendo algumas coisas com as pedras que a vida lhe vai atirando ou com as sérias americanas que também são boas a falar destas coisas. É que a desculpa do "se arrependimento matasse" ou o "se pudesse faria tudo diferente" já não cola com ninguém e reconhecer, ao fim de meses ou anos, que não se soube cuidar daquilo que hoje se vê ter sido a melhor coisas que nos aconteceu não muda as acções mal praticadas, as palavras que cortaram e muito menos mudam o traseiro de onde o sol nasce, que vai agora alumiar para outros horizontes.



