A minha avó faleceu há 4 meses e na altura prometi que assim que me sentisse "resolvida" com este facto escreveria sobre esta minha experiência, eu que só há muito pouco tempo comecei a passar por este tipo de perdas. Prometi que, tal como deixei aqui a minha partilha de como foi na altura, ainda a quente, mais tarde falaria do que se sente, do que se pensa, do que fica e este texto é sobre isso exactamente.
Sobre o sentir neste campo sou suspeita. Não fui criada com os meus avós (nem paternos nem maternos) e só os via no Verão, durante umas semanas ou caso acontecesse algo que fugisse à rotina, tendo por isso uma ligação algo precária com eles. Também não eram as pessoas mais afectuosas que eu conhecia e eu sempre fui uma miúda demasiado bichinho do mato para me chegar a quem por mim não puxava, tendo a relação ficado assim a boiar numas águas mornas. Ainda assim, eram os os meus avós, a razão de eu ter pais e isso, já devia ser o suficiente para eu nutrir algo de muito bom por eles. A avó que perdi era a mãe do meu pai e, para quem não conhece a história, morreu aos 96 anos e eu apelidei-a da McGyver das avós pois a vida com ela não foi madrasta, foi um personagem mau da Disney.
Do que o meu pai e tios falam era uma mulher dura, sempre de soco ou vergasta na mão mas também, não era fácil criar uma tropa de filhos sozinha visto que o meu avô só vinha a casa a cada 15 dias, numa boa fase lá no trabalho. Ficou sem mãe pequenina e essa perda marcou-a para sempre, endurecendo o coração de menina que de repente se viu a servir na casa do Coronel pois o pai não se sentiu capaz de a criar sozinho. Não era boa pessoa mas era uma boa mulher e isto, de algo lhe deverá ter valido ao longo da vida. Era feita de uma espécie de liga metálica que a tornou moldável mas inquebrável, dura e resistente mas facilmente adaptável às situações. Não posso dizer que lhe sinto saudades mas reconheço o seu valor intrínseco e a noção de que, nos dias de hoje, são poucas as mulheres feitas da mesma fibra.
No que penso? Penso no medo de quando for "a minha vez". Os pais e as mães também morrem e, independentemente da idade que possamos ter, seremos sempre a mais frágil e indefesa das crianças no dia em que perdemos o nosso pai ou mãe. Penso em algumas atitudes que tive que não foram correctas, penso de quando não foram correctos comigo, penso que as coisas já podiam ser como são há muito muito tempo e penso, como penso, que se assim fosse, eu nem teria nascido. Penso nas palavras do meu pai que agora fala somente das coisas boas da mãe e penso na minha mãe que viu perder a sua sem nunca terem sido verdadeiramente sinceras uma com a outra, nunca se arrumaram por dentro. Penso que a continuar assim, estou no mesmo caminho....
O que fica? A realidade de que ninguém é eterno, que eu tenho quase 26 anos, que os meus pais já têm 65. A realidade é que um dia vai ser muito muito difícil passar por isto porque sou um coração com perdas que não sabe lidar com perdas. Mas sei que quando for a minha vez só quero poder tê-los perto, muito perto, junto a mim e do meu jeito dizer-lhes adeus...até qualquer dia.
Liz

