Por aqui ouve-se Fado. Não porque é moda dizer que se ouve Fado, não porque o Fado se tornou património imaterial da humanidade. Não, aqui ouve-se Fado porque se gosta muito de Fado e se entende cada palavra, cada sentimento, cada trinado da voz ou da guitarra.
Quando era miúda era o que mais se ouvia aqui por casa: Amália, Teresa Tarouca e outros grandes artistas deste estilo musical. Por vezes, era só Carlos Paredes o que tocava no gira-discos, cujo arranhar dava à música o seu lado místico. Mas nessa altura eu não gostava, era chato, parado, muito sofridinho e triste, mas os anos passaram e eu dei por mim a gostar de fado pois tal como ouvi uma vez, só se gosta de fado depois de se sofrer um desgosto de amor. E não é que é verdade?
Há dois Fados que me são particularmente queridos. Um deles é este, oiçam e percebem rapidamente porquê...
E o outro é este, pois expressa o meu "tipo" de fé, o Deus em que acredito
E há lá coisa mais bonita do que se ser assim triste, ser assim Português? E numa casa de Fados a meia luz, mesas toscas e paredes com fotos de artistas que já estão longe de nós, com um copo de vinho e uma velinha acesa já tantas vezes, eu deixo-me ir, deixo que aquela voz me leve até onde só o português consegue ir. Vou na saudade.