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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Exercício #2

Mais um exercício, do mesmo autor e do mesmo livro, cujo objectivo é treinar o mostrar ao invés do contar, usando para isso o traço principal de uma personagem (fornecido no exercício). Devo recorrer à caracterização directa (características físicas) e indirecta (objectos, espaços, atitudes, hábitos). A piada de todo o exercício está em fazer-vos descobrir qual é essa característica (ou o seu homónimo) através da minha descrição. How fun is that!?

Todas as noites o ritual do Luís é o mesmo: sentado, só, na sua ricamente trabalhada secretária em madeira de carvalho, abre um caderno de desenho com a capa negra, retira da primeira gaveta uma caneta de aparo e apaga o pequeno candeeiro de mesa que tem à sua direita. Algo de incongruente reside no Luís, o homem que desenha às escuras mas que, efectivamente, não precisa de luzes pois o seu objecto de desenho diário está bem iluminado à distância da sua janela de cortinas afastadas. Não lhe sabe o nome mas já a apelidou de Madame pela forma como se movimenta pelo seu apartamento estúdio, como se fosse a única mulher na terra e isso lhe desse o direito de se pavonear nua com as luzes acesas ao som de uma música que ele ainda não conseguiu decifrar mas que será certamente a banda sonora da sua vida dali para a frente.
Todas as noites o mesmo ritual: secretária, caderno, caneta, mulher nua. Durante o dia o Luís será um homem tão digno de ser observado como qualquer outro com que nos cruzemos: alto e magro, cabelo negro e mãos grandes, mas finas, delicadas. Veste-se como um dandy dos tempos modernos, só usa sapatos castanhos e recusa-se a sair de casa sem os seus óculos de sol, diz serem o seu escudo da invisibilidade, que tudo lhe permitem observar sem ser ele observado. Demasiado jovem para se entregar aos serões que para si escolheu mas demasiado velho para as noites de folia a que a cidade o chama, Luís é um solitário por excelência, uma espécie de monge numa cidade com mais de 10 milhões de habitantes. Não lhe são conhecidos amigos e mulheres, só tem uma, a Madame do prédio em frente por quem espera religiosamente todas as noites e a qual já desenhou em mais de 10 cadernos de capa negra. Deitada, dançando, só as pernas, só os seios, cabelo solto ou enrolado na toalha de banho. É o seu objecto de fascínio, a sua Dulcineia, a sua musa, a sua diva e nela busca o afecto e a intimidade na única forma que se sente preparado para aceitar : à distância, sem que a outra parte se saiba envolvida nesta obsessiva relação de amor. Para o Luís é amor, claro que sim! O que ele nutre pela formas perfeitas da sua ninfeta é amor, adoração, obsessão e sempre será assim, no seu mundo imutável de rotinas estritas num trabalho onde não existem mulheres e numa casa onde não se ouve música. Até ao dia. O dia em que a Madame não apareceu nua, nem sozinha. 
Um homem, na casa da sua ninfa, segurando um copo de vinho e deitado na alcova da sua amada dançarina em cabaret próprio. Revoltado, indignado, traído, Luís perde o controle. Levanta-se de rompante e dirige-se à janela por onde os observa, deixando-se vulnerável às luzes de uma rua demasiado movimentada para alguém na sua secreta condição . Encostado ao vidro repete para si um hipnótico "não lhe toques, não nela" enquanto os dois futuros amantes se divertem entre copos de vinho e puffs marroquinos ao som de (sabe-o finalmente) Lana Del Rey sem que Luís possa fazer nada contra isso, vê-se entregue ao supra sumo do seu vício, do seu eu: a impotência perante as acções do outro.
Louco, não suportando mais qualquer tipo de toque ou contacto entre os dois fez a única coisa que sempre se proibiu com a intenção de obter o que sempre abominou: ligou as luzes numa tentativa de lhes chamar a atenção. Não só a pequena luz do candeeiro da secretária mas também o candeeiro de pé junto da poltrona de couro e, por fim, o lustre em arte noveau que pende do florão do tecto. Nunca aquela sala se vira tão iluminada e nem o próprio Luís sabia como lidar com as formas que agora se lhe apresentavam: centenas, milhares, de cadernos pretos dispostos nas estantes que ocupam a quase totalidade das paredes davam a todo o espaço uma aura de sala de pânico, fechando-se sobre o Luís. Atónito e meio que em choque Luís nem se apercebera do que se tinha passado no mundo da sua musa e, quando finalmente voltou a si e se lembrou da razão daquele espectáculo de luz mas sem cor, viu que do outro lado tudo tinha mudado e numa perfeita metamorfose de papéis, o quarto da Madame agora às escuras. No dia seguinte, o Luís mudou de casa. 


Contas feitas, o Luís é um......? Escrito ao som disto.


Liz

terça-feira, 28 de maio de 2013

Papel e lápis

Existe uma obsessão comum a todos os que gostam de escrever: a maneira como o fazem. Todos nós, "escritores", temos os nossos pormenores e idiossincrasias e as clássicas paranóias. Há escritores que só escrevem com uma determinada caneta, de uma determinada cor e se esta lhes falha, sentem-se totalmente incapazes de escrever. Há quem só escreva em cadernos e blocos de notas e quem só se sinta inspirado numa determinada mesinha de café, ou no transporte público a caminho de casa enquanto observa quem por si passa. Mas todos nós, temos, de certeza, o nosso "ritual de escrita", aquele momento em que a inspiração toma conta de nós.

Eu só escrevo bem de noite, sozinha no meu quarto com um candeeiro de luz morna em cima da secretária. Todos os textos diurnos parecem vazios de qualquer coisa que me faça sentir a vontade de os publicar e no dia-a-dia faço-me sempre acompanhar de um pequeno caderno pautado, de capa castanha que fecha como se fosse um envelope e da sua caneta de tinta permanente. Só aquela caneta tem o direito de escrever naquele bloco e porquê? Porque o som que ela faz ao arrastar a sua ponta pelo papel é simplesmente delicioso, poético, incentiva à escrita de uma e outra página. E o cheiro a tinta fresca que as esferográficas não conseguem igualar ou mesmo, em último caso, os dedos borrados com tinta. Na faculdade, todos os meus apontamentos foram manuais e foi isso que me salvou de chumbar às cadeiras. Foi também esse facto que fez com que ainda hoje circulem pela Faculdade de Letras apontamentos meus. 

Escrever para quem gosta de escrever não é um esforço mas uma necessidade, quase tão vital como respirar ou tão inata como pestanetjar. Esta coisa de brincar com palavras e sentidos, coisa belíssima, dom concedido ao ser Humano, a possibilidade de escrever "mulher" ou "jovem senhora", a paridade entre o que se sente e o que é escrito e, claro, a quase ausência do filtro que restringe o que se diz, mas que não tem lugar no que se escreve. A mim a escrita faz-me palpitar o coração, dá-me tremores e quase me põe a ansiolíticos. Sei que preciso disto mas sei também qual é o meu maior veneno, a minha kryptonite: a felicidade. Durante 3 anos não consegui escrever, era-me impossível, só saída porcaria e eu nunca consegui manter um blog durante os meus "tempos felizes". Agora, entre o tristonha e o desgosto, dou por mim a escrever coisas que, sem qualquer modéstia, assumo que são boas e isto assusta-me. Tenho medo que um dia a felicidade me tome de novo o meu néctar de ambrósia e eu fique de novo sem ter sobre o que escrever. Contudo, sinto ter um trunfo: agora sei o que é sofrer ao ponto de escrever bem e isto dá-me alento para que este meu vício de dedos não me abandone, seja apenas adormecido por uma felicidade gritante.

Liz