Existe uma obsessão comum a todos os que gostam de escrever: a maneira como o fazem. Todos nós, "escritores", temos os nossos pormenores e idiossincrasias e as clássicas paranóias. Há escritores que só escrevem com uma determinada caneta, de uma determinada cor e se esta lhes falha, sentem-se totalmente incapazes de escrever. Há quem só escreva em cadernos e blocos de notas e quem só se sinta inspirado numa determinada mesinha de café, ou no transporte público a caminho de casa enquanto observa quem por si passa. Mas todos nós, temos, de certeza, o nosso "ritual de escrita", aquele momento em que a inspiração toma conta de nós.
Eu só escrevo bem de noite, sozinha no meu quarto com um candeeiro de luz morna em cima da secretária. Todos os textos diurnos parecem vazios de qualquer coisa que me faça sentir a vontade de os publicar e no dia-a-dia faço-me sempre acompanhar de um pequeno caderno pautado, de capa castanha que fecha como se fosse um envelope e da sua caneta de tinta permanente. Só aquela caneta tem o direito de escrever naquele bloco e porquê? Porque o som que ela faz ao arrastar a sua ponta pelo papel é simplesmente delicioso, poético, incentiva à escrita de uma e outra página. E o cheiro a tinta fresca que as esferográficas não conseguem igualar ou mesmo, em último caso, os dedos borrados com tinta. Na faculdade, todos os meus apontamentos foram manuais e foi isso que me salvou de chumbar às cadeiras. Foi também esse facto que fez com que ainda hoje circulem pela Faculdade de Letras apontamentos meus.
Escrever para quem gosta de escrever não é um esforço mas uma necessidade, quase tão vital como respirar ou tão inata como pestanetjar. Esta coisa de brincar com palavras e sentidos, coisa belíssima, dom concedido ao ser Humano, a possibilidade de escrever "mulher" ou "jovem senhora", a paridade entre o que se sente e o que é escrito e, claro, a quase ausência do filtro que restringe o que se diz, mas que não tem lugar no que se escreve. A mim a escrita faz-me palpitar o coração, dá-me tremores e quase me põe a ansiolíticos. Sei que preciso disto mas sei também qual é o meu maior veneno, a minha kryptonite: a felicidade. Durante 3 anos não consegui escrever, era-me impossível, só saída porcaria e eu nunca consegui manter um blog durante os meus "tempos felizes". Agora, entre o tristonha e o desgosto, dou por mim a escrever coisas que, sem qualquer modéstia, assumo que são boas e isto assusta-me. Tenho medo que um dia a felicidade me tome de novo o meu néctar de ambrósia e eu fique de novo sem ter sobre o que escrever. Contudo, sinto ter um trunfo: agora sei o que é sofrer ao ponto de escrever bem e isto dá-me alento para que este meu vício de dedos não me abandone, seja apenas adormecido por uma felicidade gritante.
Liz
Eu costumo dizer que é de noite que as palavras perdem a timidez.
ResponderEliminarGosto muito de escrever em papel, parece que as letras conjugam as palavras mais facilmente.
exacto! tudo flui de outra maneira :)
EliminarNão gosto da expressão, mas que remédio vou ter de a utilizar que não vejo outra...Nos meus tempos de adolescente o meu cérebro efervescia de tal forma que eu chegava a sonhar com o que queria escrever, acordava e tomava nota de tudo e só depois adormecia tranquila.
ResponderEliminarGostava de ler e reler os meus textos, limava-os muito, mas sempre que intuia que estavam prontos, não voltava a acrescentar-lhes nem uma vírgula.
Ainda hoje se quero organizar pensamentos tenho de voltar ao papel e à caneta, pelo menos para o rascunho.
jinhosssssss
Exactamente como eu :)
EliminarE quem me tira a escrita a mao tira.me tudo :)
Beijinhoooo
Afinal, onde fica o lápis? :p
ResponderEliminarOpinião: nunca pares de escrever, porque o fazes de uma forma sublime :)
Oh o lapis corrige o que a caneta escreveu mal :p
EliminarMuito obrigada :)*** farei por isso!