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sábado, 4 de maio de 2013

Não me chames "meu menino"

Apoderada por uma neura gigantesca e corrosiva, decidi deixar de lado a destilação de veneno e vapores tóxicos para qualquer ser humano e, num pulo, pus-me na baixa da cidade. No metro ouvi quase todas as línguas menos a minha, parece que estamos naquela época em que a minha cidade fica um pouco menos minha para se tornar na meca de quem gosta de sol/arte/arquitectura/boa gente. Subida rápida até ao Teatro do Bairro, 3 euros para o bilhete, mais uns poucos para uma água com limão e um magnífico e, dos melhores que já comi, croissant com chocolate. Espera de 15 minutos, tempo para relaxar e recuperar o fôlego e preparar-me (ainda que tenha sido completamente impossível) para a peça que aí vinha. 

Seriam 15 minutos em que a actriz Rita Ribeiro ia encarnar a mãe de Gisberta, uma transsexual brasileira que morreu há 7 anos vítima de espancamento e violência sexual, durante 3 dias seguidos, por 14 jovens entre os 12 e os 16 anos, acabando a ser atirada para o poço de um prédio em construção, ainda viva. Preparei-me para um discurso emotivo e contunde mas nunca para aquilo a que me "sujeitei" em apensas 15 minutos. Toda a peça foi um imenso murro no estômago, contundente, o dedo na ferida e, ver do corpo de uma mulher pequena, frágil, sair uma voz portentosa que por norma associamos a uma amazona foi overwhelming (peço desculpa pelo termo em inglês). 

A "mãe" de Gisberta faz o relato emocionado de como era o seu menino, de como queria que ele tivesse sido, da vida que ele e ela tiveram e, acima de tudo, fala de como amando tanto o seu menino nunca foi capaz de amar a Gisberta. Mostra-se consumida pelo sentimento de culpa de nunca ter defendido o menino a quem o pai cobria de pancada dizendo "não chores! Se choras levas mais!", e o seu menino não chorava. Como podia ela defendê-lo se ela não o queria fazer? Se também ela pensava que sobre a lei da pancada o seu menino se ia endireitar?

Porque me tocou? Porque também eu, em tempos passados, ouvi da minha mãe que talvez, se me desse uma carga de pancada, eu me afastasse dele, mas ela sabia que nem isso me faria deixar de gostar dele. Talvez, se tivesse tido menos mimo hoje não fosse assim, como sou. E quantos de nós não temos qualquer coisa de Gisberta e quantos de nós não temos na nossa mãe uma falha, uma lacuna, algo que queríamos tanto ter ouvido e que ela nunca foi capaz de dizer. Mesmo que fosse apenas o nosso nome.

Uma peça a ver, onde as desculpas do preço do bilhete ou do tempo consumido não têm lugar. Mas preparem-se, não fosse a história só por si contundente, a actriz soube moldá-la a si de uma forma em que, durante 15 minutos, temos perante nós a mãe da Gisberta.




Liz

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Presos

Está em cena no teatro rápido, no Chiado, uma peça com a actriz Rita Ribeiro que aborda um tema que a mim me comove muito, que mexe muito comigo: a transsexualidade.

Comove-me pois eu não imagino o que seria para mim, mulher, orgulhosa do meu género e do meu corpo, acordar todos os dias num corpo masculino, com todas as características de homem, com voz de homem, barba, um pénis. Não imagino o que será acordar nesse corpo todos os dias e todos os dias ter que lidar com ele, presa, contida, constrangida por aquele que devia ser o meu templo, o meu casulo. Sentir-me mulher, feminina, querer envergar um vestido e vê-lo assentar de uma forma perfeita no peito, na cintura, nas ancas, mas não ter nenhuma destas coisas. 

Se gozada, rejeitada, magoada, descriminada até por aqueles que me puseram no mundo pois para eles, sou um paneleiro, um bixa, um merdas. Quando contas feitas, a única coisa que sou é uma mulher presa dentro do corpo de um homem. A peça fala de Gisberta, um rapazinho brasileiro que se recusou a viver para sempre nesta condição, tornando-se uma mulher muito bela que acabou a viver como sem-abrigo, morrendo sozinha, doente. 

Acho que poucas vezes valorizamos as coisas que realmente contam e queixamos-nos de coisas fúteis como um peito descaído, uma barriga redondinha ou um rabo que custa enfiar num qualquer par de calças. Queixamos-nos de coisas fúteis, coisas de mulher, quando no mundo há tantos homens que morrem em mesas de cirurgia clandestinas, com o sonho de ter um pouco daquilo que já nasceu connosco, por uma condição com a qual fomos abençoadas. As vezes vejo como sou uma sortuda.


Liz