sexta-feira, 3 de maio de 2013

Presos

Está em cena no teatro rápido, no Chiado, uma peça com a actriz Rita Ribeiro que aborda um tema que a mim me comove muito, que mexe muito comigo: a transsexualidade.

Comove-me pois eu não imagino o que seria para mim, mulher, orgulhosa do meu género e do meu corpo, acordar todos os dias num corpo masculino, com todas as características de homem, com voz de homem, barba, um pénis. Não imagino o que será acordar nesse corpo todos os dias e todos os dias ter que lidar com ele, presa, contida, constrangida por aquele que devia ser o meu templo, o meu casulo. Sentir-me mulher, feminina, querer envergar um vestido e vê-lo assentar de uma forma perfeita no peito, na cintura, nas ancas, mas não ter nenhuma destas coisas. 

Se gozada, rejeitada, magoada, descriminada até por aqueles que me puseram no mundo pois para eles, sou um paneleiro, um bixa, um merdas. Quando contas feitas, a única coisa que sou é uma mulher presa dentro do corpo de um homem. A peça fala de Gisberta, um rapazinho brasileiro que se recusou a viver para sempre nesta condição, tornando-se uma mulher muito bela que acabou a viver como sem-abrigo, morrendo sozinha, doente. 

Acho que poucas vezes valorizamos as coisas que realmente contam e queixamos-nos de coisas fúteis como um peito descaído, uma barriga redondinha ou um rabo que custa enfiar num qualquer par de calças. Queixamos-nos de coisas fúteis, coisas de mulher, quando no mundo há tantos homens que morrem em mesas de cirurgia clandestinas, com o sonho de ter um pouco daquilo que já nasceu connosco, por uma condição com a qual fomos abençoadas. As vezes vejo como sou uma sortuda.


Liz

5 comentários:

  1. Eternos insatisfeitos.
    Podia escrever isto em todos os posts que pululam na blogosfera.
    Acho essa história muito triste. E ver documentários de histórias semelhantes? Sou uma mole :/

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  2. Fico feliz de ver que existem pessoas que pensam e se preocupam com este assunto :)
    Se para pessoas como eu, o processo de aceitação da sexualidade, e posteriormente da aceitação por parte dos amigos, familiares e afins, é um processo penoso que pode durar anos, ou mesmo nunca acabar, nem quero imaginar somar a tudo isto a insatisfação com o sexo. (que por sinal acredito ser bem mais penosa que a aceitação da sexualidade)
    ... De facto tens razão e digo da mesma forma que as vezes vejo como sou sortudo :/

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    1. Ola Gonçalo, benvindo :)

      Preocupa.me e comove.me tal como.digo no texto pois as vezes ja é tao dificil afirmarmos.nos com coisas tao pequenas quanto mais com um tabu destes...ainda tao mal e pouco aceite :/

      E quanto a ti...nao desistas :)*

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    2. Obrigado!

      E concordo plenamente contigo... :/

      *

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