À noite custa mais. Não existe sol lá fora que me chame para o aproveitar nem o movimento à minha volta me distrai dos meus pensamentos. A noite é também aquela altura em que me permito parar e deixo que o que recalquei durante todo o dia me absorva, que saia e possa agora ser excomungado, em choro ou em sono. É de noite que eu me assumo na minha solidão e me permito pensar em quem já não é meu e em quem um dia poderá ser. É de noite que coloco um dedal, enfio linha numa agulha e me sento debaixo de um candeeiro a tecer pequenas costuras num coração partido, sem saber bem que farrapo juntar a qual já que todos parecem pertencer a todo o lado. É de noite, só de noite, que dou de beber a dor e faço as minhas orações, pedindo que de manhã tenha mais uns pontos que ajudem a segurar as pontas.
Liz