O primeiro dia de escola deve ser sinónimo de novidade, de uma coisa boa na vida de qualquer criança, uma etapa, um desafio. Pois no meu primeiro dia de escola eu levei um estalo de uma menina que seria da minha turma durante os próximos 4 anos. Porquê? Porque eu tinha o cabelo comprido aos cachos e ela não.
Há quem diga que não existem crianças más, pois eu acredito que não existem crianças boas. Acredito que todos nós nascemos com uma centelha de maldade que pode ou não ser apagada, sendo esse o trabalho dos nossos pais, família, núcleo. Contudo, sei que há crianças especialmente más, crianças que desde pequenas sentem um prazer imenso em infligir dor, vergonha ou humilhação no outro que deveria ser visto como um igual.
Porque o fazem? Falta de umas palmadas na hora certa, frustrações próprias, egoísmo, inveja de quem brilha com luz própria, de quem dá nas vistas, de quem tem cabelos cacheados. Posso dizer que só no meu segundo 10º ano me senti verdadeiramente confortável na escola e que até esse momento sempre fui uma "esquisita", uma oustider. E porquê? Porque era alta, porque era cheínha, porque estava muito magra, porque participava nas aulas, porque era muito calada, porque tinha os dentes tortos, porque usava aparelho, porque queria ter amigas, porque não era igual a elas.
Hoje este tipo de comportamentos tem um nome importante, bullying, mas naquela altura era a norma, era o que acontecia, o que sempre aconteceu e o que, infelizmente vai continuar a acontecer. Enquanto somos miúdos aceitamos as coisas com outra leveza, deixamos andar, mesmo que andando tristes, desinteressados, meios perdidos, mas na adolescência, aquela idade ruim e que para tão poucos é caridosa, o caso muda de figura. E os "maus" sabem escolher as suas vítimas, sabem quais são os inseguros, os envergonhados, os tímidos, os inteligentes demais e os menos espertos, sabem com quem têm coragem de se meter à parva que sabem que dali não vêm represálias. Os "maus" não são estúpidos mas são acima de tudo uns cagões, uns medrosos, uns coitados tão inseguros dos próprios defeitos que precisam de evidenciar os dos outros para se sentirem um pouco melhor com eles mesmos.
Infelizmente nem todos os miúdos passam bem pelo bullying, nem todos os miúdos lidam com isto da maneira como deve ser lidado e alguns desistem a meio caminho. A resposta dada aos pais que perderam um filho/a? Foi uma fatalidade. Apanhei muito, perdi a inocência com que via os outros meninos mas hoje vejo que isso me fez bem pois não há filho da mãe nenhum que me ponha os pés em cima, pois ninguém é melhor que eu, simplesmente, diferente.
Liz