sexta-feira, 8 de março de 2013

Dissecar

Não acredito em pessoas que superam as mais complicadas situações de uma maneira muito polite, muito superior e muito rápida. Acredito que nem todos lidamos com a mesma situação da mesma forma, pois para cada um a situação terá diferentes perspectivas e um grau muito próprio de importância  contudo, uma pessoa que supere muito bem uma perda (seja ela qual for) não me inspira confiança.

Há quem chore, há quem sinta alívio, há quem prefira resguardar-se e lidar sozinho com a sua dor e há quem se limite pura e simplesmente a não lidar com ela. Eu entendo nos que choram pois faço parte dessa espécie de gente que chora até os olhos doerem e grita e esperneia e sofre de uma forma muito óbvia e dolorosa. Eu entendo os que sentem alívio pois se para uns uma perda significa o vazio, para outros, a perda é o balsamo à tanto tempo pedido, a lufada de ar fresco que finalmente nos fará sentir de novo livres e felizes. Os que se resguardam? Também os entendo e acredito que são mesmo aqueles que mais sofrem, pois o seu sofrimento é tanto e com tamanha intensidade que eles sabem perfeitamente que será uma descida aos infernos e que esta descida é feita a solo. Agora, os que não lidam? Estes, assustam-me

Porque que me assustam? Porque eu sei que um dia, mais cedo ou mais tarde, aquela dor e aquela revoltam vão saltar cá para fora e ai o estrago será sem duvida calamitoso! O meu melhor exemplo é o de um familiar que perdeu o pai numa tenra idade e o pai era o seu herói  o seu chão. Perdeu-o para um cancro, acompanhou o processo todo, tal como a mãe e a irmã, e se a menina o chorou de uma forma que quebrava o coração só de olhar para ela, ele não chorou. Ele nunca chorou, nunca gritou, nunca mostrou um sinal de revolta, assumindo de imediato o papel de "homem da casa" e os homens, não choram. Entretanto já se passaram cerca de 10 anos e o menino que não chorou vive agora uma vida muito dúbia de noitadas, namoradas e bebedeiras épicas e diz para quem o quiser ouvir, que não quer ter filhos. Se eu posso relacionar as duas coisas? Não sei, visto os meus conhecimentos de psicologia se resumirem a um 6º sentido  de mulher e aos anos que tenho de "consoladora oficial do grupo", mas muito humildemente digo que sim, pois quando não sabemos lidar com a dor e com a perda e não lidamos com ela na altura certa, quando está quente, quando acontece, instala-se um vazio e esse vazio vai-se manifestar numa série de comportamentos e "vícios" que mais tarde vão surgir. Não é a toa que vítimas de abusos sexuais se tornam mais tarde promiscuas ou que filhos de pais com um casamento desestruturado abominam a ideia do casamento (isto são generalidades, cada caso é um caso). O que pretendo apenas dizer é que as coisas têm que ser vividas, remoídas  faladas, discutidas e sentidas no momento certo, pois mais tarde estamos sujeitos a manifesta-las numa sombra que aparentemente nada terá a ver com o ocorrido mas que, quando bem analisada, vemos que está tudo ligado.

A dor é minha amiga. É um conceito em que acredito piamente pois a dor obriga-me a mudar, obriga-me a procurar uma saída para ela, obriga-me a mexer e a sair da minha zona de conforto. A dor ensina-me mais que a felicidade pois na felicidade eu não procuro mudança mas estagnação, que nada mude pois o agora está perfeito, enquanto a dor me obriga a esvaziar as "gavetas" que estão todas desorganizadas, arrumando-as de uma forma metodica e escolhendo o que quero manter arrumado e o que vai fora. A dor obriga-me a olhar para mim from the outside, analisando os porquês e os porque não, descobrindo se a pessoa que me tornei era quem eu queria ser ou, se pelo contrário, vivia na dor e não sabia. Não digo que gosto da dor, mas sei que preciso dela pois tal como alguem um dia disse


No pain, no gain.



Liz

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