Como devem saber, no fim de semana passado sofri uma perda física, daquelas a que chamamos de morte de um parente, ente querido. Foi a primeira vez que "assisti" a todo o processo, desde o comunicado ao adeus final e confesso que não podia achar o processo mais chocante ou perturbador.
Tal como disse no post anterior a minha avó faleceu na 6ª feira, na sua cama, enquanto dormia. Soube mais tarde que isto é o que se chama de "morte de luxo" e para quem via na morte o seu maior medo, foi, sem qualquer dúvida, um final feliz. A partir deste momento já nada é sobre quem partiu e tudo se conjuga em quem cá fica. A escolha da agência funerária certa, da roupa certa, do caixão certo, da cerimónia certa. Sendo uma senhora idosa e nortenha claro que a roupa tinha que ser sóbria, escura. O caixão adequava-se ao seu frágil corpo de 50 kilos e o padre, pelo que me disseram, era "mestre" em qualquer cerimónia, do baptismo ao velório e tudo o que pelo meio possa acontecer. Avisar a família, os amigos, as "pessoas que têm que ser avisadas". Organizar casas pois a maioria de nós já não mora no Norte, comprar bilhetes de avião à última hora pois a emigração não é fenómeno dos dias de hoje e saber quem vai buscar quem, quem fica onde. O velório: a pequena capela ficou recheada de flores, de lágrimas, e um caixão aberto coberto por uma espécie de tule mostrava quem se velava, de quem se guardava o corpo pois a alma, essa, já tinha partido à muito.
Confesso que me impressionou ver a exposição dada a um momento tão íntimo, tão familiar, tão nosso. A capela estava aberta, quem quisesse entrava, via, "espreitava", comentava quem chorava e quem estava sereno. E a minha avó...não respirava. Estava serena, pálida, mas serena, pequenita, frágil, e não respirava, e neste momento eu tomei consciência do cliché que lemos em frases espirituais: o corpo é um suporte de vida, não a essência. Já não era ela ali, não a mulher que durante 96 anos teve momentos, de alegria e tristeza, perda e reencontro. A minha avó já não estava ali, estava perto, algures ali perto, mas já não era quente, já não respirava. Ainda assim, só posso imaginar a dor que o meu pai e os meus tios sentiam, era a mãe deles, deu colo e chineladas, carinho e ralhos, mas era a mãe deles e um dia, quando for eu no seu lugar, Deus sabe como vou reagir, ainda que seja um corpo desprovido dela, da minha mãe.
No dia seguinte, Sábado, foi o funeral. Muita família, a maioria já nem conhecia pois a distância assim o impôs, todos juntos por um objectivo comum, ainda que triste. As semelhanças entre todos nós eram entorpecedoras e ver como o meu pai e um dos meus tios se assemelham cada vez mais ao meu avô mostrou-me que os anos não passaram só para mim, que os pais e as mães também ficam velhos e isso assustou-me, muito. Fim da missa, caixão fechado e o momento em que ninguém se aguentou: é agora, é agora que ela se foi, não a vemos mais, morreu. Cortejo para o cemitério, um calor abrasador e um silêncio de morte. Último adeus e um caixão novamente aberto....perdoem-me o quão mórbido este texto se tornou mas tenho que partilhar isto, preciso! Marcou-me muito ver até que ponto de sofrimento o ser humano se sujeita, se deixa levar por quem já não está "ali". Levaram-na para o jazigo.
Tal como já disse, foi o meu primeiro contacto com a morte, pelo menos desta forma assim crua, a sangue frio e como podem perceber, mexeu muito comigo. Não entendo, não consigo entender o "espectáculo" que se constrói em torno do momento de maior dor e aflição que uma família pode passar. As cuscas carpideiras, os mirones, os que estão por obrigação e os que realmente sofrem. Tudo elevado ao extremo, tudo muito sofrido. Claramente, o funeral não é uma cerimónia para quem partiu mas para quem ficou, somos nós que "pedimos" aquele ritual para termos em nós a certeza de que dissemos adeus. Quem perdeu um ente querido e não recuperou o corpo sofre com a falta de um sítio físico onde o possa velar, onde saiba que ali jaz quem ainda ama, quem nem a morte separou. A morte magoa quem fica, quem tem que viver sem aquela presença, quem está condenado a uma saudade eterna de quem, um dia, esperamos voltar a rever. Mas nós, eu, somos tão mais do que carne e osso e só neste momento o percebi. Somos gargalhadas, faces rosadas, fala, respiração, piscar de olhos. Somos um organismo perfeito sustentado por 7 gramas de algo que parte, seja que por motivo for. Somos sonhos, medos, ambições, memórias. Somos saudade, somos tão feitos de saudade.
Podemos velar o corpo, dar-lhe um fim digno. Podemos construir uma campa luxuosa e proporcionar uma cerimónia bonita mas contas feitas, se não deixarmos bem claro em vida o que sentimos por aquela pessoa, não é na morte que o fazemos. Este assunto ainda mexe muito comigo, esta finitude, este "acabou". Não entendo.....claro que entendo a explicação da biologia, da física, da química, mas o meu lado inquisidor não compreende ainda que um dia, quem amo, quem preciso, me vai deixar e que eu nada posso fazer em relação a isso. Espero que os anos me deixem uma melhor percepção de tudo isto....até lá, adeus avó.
"Lembrares-te de que vais morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensares que tens algo a perder"
Liz
Como te compreendo, com a minha avó foi igual. Cheguei a sentir vontade das pessoas que não eram familia, que lá chegavam à capela, levantavam o véu que cobria o rosto da minha avó e que ficavam a olhar, alguns até, que a beijavam! e depois iam para lá fora, falar da vida e fumar um cigarro!
ResponderEliminarMas para mim, o pior momento foi mesmo a entrada do caixão na terra. A terra a cobrir o caixão, a cobrir a minha avó, ou o que um dia tinha sido a minha avó. Aquilo, apesar de tudo, simbolizava que eu nunca mais a iria ver, nunca mais a iria ouvir, estar com ela, fazê-la chorar de tanto rir, ralhar com ela por encher a boca de comida e nem sequer a mastigar como deve ser antes de engulir.
O fim estava ali, o fim definitivo é o monte de terra que fica por cima de quem realmente amamos. Custa-me saber que a perdi, custa-me saber que ela não viu nenhum neto a casar, custa-me saber que ela não viu nascer nenhum bisneto. Choro só de pensar nestas coisas, choro enquanto escrevo isto, e sei que a vou chorar para sempre!
Um beijinho enorme Liz!
Disseste tudo....acabou ali. E nos sem sabermos bem o que fazer...como ficar ca.
EliminarForça bigodes :)***
Convivi com a morte de perto há 4 anos atrás...fiquei impressionadíssima com tudo e a dor que com ela vem é algo demolidor. beijinho e força*
ResponderEliminarNunca pensei ser como foi...nunca. e o espaço que fica, as saudades e valem.nos as historias que para sempre vamos contar da avó Nida.
EliminarBeijinhos meu bem*
Passei pelo mesmo com o meu avô e percebo perfeitamente o que escreveste. No caso dele, houve cremação, por pedido dele. Não há uma campa, um jazigo para visitar. Agrada-me saber que ele anda por aí :)
ResponderEliminarBeijinhos e espero que te estejas a aguentar menos mal.
É o que "quero" e o que quero para os meus....sei que nao mando em nada mas bolas...caixao,terra,um buraco no chao....trumatico, desnecessario.
EliminarAguento sim, foi uma morte que se "aceita" entendes? Beijinho minha querida*
No espaço de 3 meses perdi duas pessoas: uma de 29 anos e, há 3 semana, outra de 86 anos. E a cada perda que tenho e a cada luto que vivo, mais odeio a morbidade da cultura latina, no que diz respeito ao funeral. O som da terra bater numa urna é o pior de todos os sons do meu repertório...
ResponderEliminarA dor da perda é a pior das dores, é a quebra de um vinculo físico, quase sempre sustentado no mais nobre dos sentimentos: amor. E depois? O que fica? O amor fica certamente, mas é preciso ajusta-lo ao facto de nao termos a pessoa fisicamente connosco. Nao tenho qualquer duvida que conseguirás ajustar-te rapidamente. És novinha, sensivel e tens uma familia unida. Mas se calhar, é uma boa oportunidade para parares e pensares nas tuas relações, fazer um balanço daquilo que tens e que gostarias de ter. Na conclusão dessa reflexão e deste luto, vais ficar um pouquinho mais madura e mais selectiva no que queres para a tua vida. E apesar de ser algo bastante privado, seria simpático e muito acolhido se quiseres partilhar no teu cantinho.
Um beijinho minha doce Liz, muita força para esta fase horrorosa que ninguem nos ensinou a viver.
A cultura latina baseia.se na tragedia, no choro, no sofrimento. A oriente a morte éalgo para o qual caminhanos, é natural, expectavel e desde pequenos sao habituados a lidar com esse facto. Nos nao, para nos, ninguem morre, ninguem fica doente e todoa somos eternos, temos sempre tempo...que estupidez hein?
EliminarClaro que partilho. Se ha coisa em que este canto me tem ajudado ê a lidar com coisas que antes so lidava dentro de mim, recebo opinioes, ajudas, partilha. Um dia falarei disto. Eu ainda nao sei perder pessoas, eu ainda nao sei deixa.las ir embora....nas vou aprender.
Um abraço apertado minha querida que tambem estas a sofrer desse lado*
Os meus sentimentos, Liz...Só perdi ainda um ente querido (felizmente!), o meu avô. E posso confirmar que, sobretudo, no dia do velório, me apeteceu meter mais de metade das pessoas na rua. Pessoas a colocar conversa em dia, a cuscovilhar a vida das outras, a comportar-se como se estivessem num café. É um momento tão privado, que me custa perceber que tanta gente esteja presente nestas ocasiões.
ResponderEliminarUm beijinho grande e força...
Culturalmente, é um evento que desperta no ser humako tanya curiosidade como um casamento ou outra cerimonia assim "grande". Eu podia ter.me poupado, eu podia ate nem ter ido mas tinha que ser, o laço criado com ela nos ultimos anos assim o pedia...e eu fui. Consola.me "saber" que esta bem, em paz e a matar saudades :)
EliminarObrigada e beijinho*
Olá Liz,
ResponderEliminarEste texto deixou-me emocionado. Por acaso a ideia que hoje posso estar bem, mas amanha pode não ser assim, já que a vida não é propriamente justa, é algo em que tenho pensado e faz-me pensar que às vezes adiar algumas coisas para amanha (como o amanha me tivesse garantido) é algo que pode não ser muito boa ideia. Acho que a ideia de que o amanha não é garantido nos faz viver mais no presente e aproveita-lo de uma forma mais intensa cada minuto e de certa forma sermos mais felizes.
Abraço
Pedro Ferreira.
Olá Pedro!
EliminarRealmente temos sempre tendência a adiar tudo, com a desculpa do "tenho tempo"...até ao dia. Não saber o dia de amanhã tem isto de bom, é mais um motivo para fazer hoje.
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