segunda-feira, 29 de julho de 2013

Desgraçómetro : ON

O tuga vai longe por uma boa desgraça. Vai muito muito longe pois para o tuga há poucas coisas mais emocionantes do que um desastre, daqueles cheios de mortos, que envolvem crianças e animais e que causam o caos nas redondezas. 

Ainda tenho muito presente o desastre de Entre-os-Rios e de ver um repórter entrevistar um labrego que se abeirava do local onde a ponte tinha caído. Pois o labrego em questão à pergunta do porquê de estar ali responde um "vim cá com a minha família. Tivemos curiosidade e queríamos ver como era ao vivo". Eu era miúda, ainda meia desligada do mundo, mas ouvir aquilo fez-me sentir uma, até então, estranha vontade de regar o senhor labrego com gasolina chegando-lhe de seguida um fósforo. 

Sei que é muito redutor dizer que só o tuga gosta de desgraças quando a atracção à desgraça é uma das peculiaridades da raça humana, mas eu só posso falar do povo que conheço. Se há mais gente a fazê-lo? Sim certamente, mas duvido que muitos mais o façam com o gosto do tuga. Sei que o tuga adora um espetamento na segunda circular ou a zona com mais transito em Lisboa não seria aquele lugar meio limbo do "sentido inverso ao acidente". O tuga abranda, espreita, tenta ver se há sangue, se foi com motas e carros, se foi só toque ou se houve capotamento. Por norma, isto dá azarinho e alguém vai ficar tão imerso no caos alheio que acaba a acelerar sem ver contra quem o faz.

Isto incomoda-me, perturba-me, talvez, por eu já ter tido um acidente, de madrugada, com duas amigas, aparatoso e ninguém parou para ajudar. Também não precisávamos pois o meu anjo da guarda deve ser super importante ou, tendo em conta o aparato da coisa, as probabilidades de ninguém se ter aleijado eram ínfimas. Mas ninguém parou. Sei o medo que agora reina nestas situações, conheço algumas das histórias em que pobres almas pararam para ajudar e acabaram num bordel em Bangkok mas....ninguém parou. 

Agora com a tragédia em Espanha o tuga teve mais uma lufada de ar fresco, mais um tema de conversa à hora de almoço enquanto beberica na bica demasiado quente. E enquanto a maioria dos comentários se prendia com teorias de engenheiros de bancada que falavam de forças centrífugas e angulos mortos, enquanto as Marias Desgraça comentavam a quantidade de sangue e vítimas espalhadas eu só pensava que naquele dia alguém ficou sem pai, mãe, irmão/a, marido, esposa, filho. Mas isto sou só eu....


Liz

4 comentários:

  1. Estou contigo. DETESTO esta veia do tuga, que também dúvido que muitos outros povos tenham. E começa logo pelo nosso jornalismo...sempre que fazem cobertura a uma desgraça (lembro-me sempre dos incênndios no Verão), conseguem fazer as perguntas mais estúpidas de sempre, numa tentativa clara de explorar o sofrimento alheio. É nojento.

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    1. Mas é disso que o povinho gosta afinal! Nos incêndios é ridículos...o desespero total em que as pessoas se encontram e o jornalista a fazer perguntas parvas. Longe vai o tempo do jornalismo inteligente, útil...

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  2. mas isso é fruto de tudo o que nos rodeia cada vez estamos mais imunes á dor à perda, tantos são os filmes, series, novelas que se esquecem da realidade daquilo que é o hoje. Confesso por minha culpa nunca parei num acidente para ajudar porque o sentimento de preservação é maior 99,9% viajo sozinha mesmo noite dentro e por isso o parar é sempre algo que temo... mas também confesso que tento sempre perceber se as pessoas estão bem e existe sempre alguém já fora do carro... assumo a minha culpa de tuga

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    1. Não acho que seja caso para assumir culpas....eu também viajo muitas vezes sozinha e de noite então não paro nem à leia da bala, mas neste caso passaram por nós carros com homens, mais que uma pessoa...e sabes? Se calhar, ainda bem que ninguém parou.

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