quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Gravity

Algo de estranho se passa, dentro e fora de mim, pois deixei de te chorar. Ainda te penso de manhã ao acordar e à noite, enquanto conto as horas no meu relógio  mas já não te choro. Bem, em verdade, dizer que só te penso ao acordar e ao adormecer é o mesmo que assumir que a Terra tinha voltado a ser plana pois estou certa de que não há no meu rol de 24 horas diárias uma em que, efectivamente, não pense em ti. 

Nem sei já dizer o que penso de ti, do nós que existiu e que agora assumo e aceito que morreu e pede chão para ser enterrado, visto que em nós o fogo sempre foi sinónimo de amor e não de fim. Penso se alguma vez fui feliz contigo e, imediatamente, sou levada para pequenos momentos nossos, dos quais já nem me sabia lembrar e que como a água da chuva que ninguém consegue conter, me invadem a mente e me desligam, levando-me a vive-los uma e outra vez. Sim, fui feliz contigo, aquela que eu era quando dia fui foi feliz contigo, talvez fosse ainda não a tivesses tu matado, com pequenas doses de veneno, não letais mas que com o passar dos anos consumiram o que de bom por ti eu uma vez permiti-me sentir. Sim, fomos felizes, fomos miúdos, fomos loucos, fomos famintos um do outro,  fomos crianças em corpos de adultos que se procuravam de manhã, de tarde, de noite, em todo o lado e em lugar nenhum. Sim, fomos felizes.

E como se numa dinâmica de roda da fortuna se tratasse, os pensamentos felizes são consumidos pelos maus, os feios, os monstros debaixo da nossa cama ou os que saem do armário quando fica escuro e a casa está em silencio. E aí vejo, como era infeliz, triste, pequenina, mesquinha, eu, que sempre me jurei nunca ser assim. Contigo tornei-me mulher e descobri o que implica ter um homem na sua vida, aprendi a amar mais do que me amava e a dar-me de corpo e mente sem nada ou muito pouco pedir em troca, contudo, descobri também a pessoa que nunca mais quero voltar a ser. Descobri o ciúme feroz, a necessidade de controle que me tirava as noites de sono, a insegurança, o medo, a solidão que só se sente quando namoramos alguém que já não nos namora. Descobri até onde me consigo deixar chegar por amor e assustei-me perante o que vi, entendendo agora atitudes e palavras tuas que até ao dia de hoje não tinha conseguido entender. Estou, sem dúvida nenhum, a meio de um processo de iluminação que me mostra todos os dias o bom e o mau da minha vida, que me mostra as escolhas e as renuncias, as tentativas e erros, em suma, que me mostra o que não só tu me fizeste, como aquilo que eu me deixei fazer. 

Sei que em determinado momento aquilo que eu defendia como amor era afinal adoração, sentimento de posse e necessidade do outro para ser feliz. Perdi-me no sentimento lindo que pela primeira vez consegui nutrir por um homem e juntos, transformamos o amor das nossas vidas numa relação doente, coberta de chagas abertas que a cada dia consumiam a carne e derrotavam o espírito.  Podíamos ter sido felizes, eu estava perfeitamente segura de que te conseguiria fazer feliz mas e tu? Serias tu capaz do mesmo? Ou que relação era esta em que eu pedia a um cego para ver o qual belo estava o dia, ou em que eu pedia a um paralítico para andar do meu lado? Quando pedimos ao outro algo que ele não nos pode dar a única coisa que recebemos é a sua revolta, pois ele não consegue dar mais e nós, cabras loucas e exigentes, não paramos de pedir que ele se levante e ande a nosso lado! Mas tu não podias andar e eu já não aguentava mais empurrar a tua cadeira de rodas.

Hoje vejo que te pedia demais, pedia a um ser que nasceu para ser sozinho que fosse o meu companheiro, a minha cara-metade. Pedia a um ser egoísta que se deixasse de lado e nutrisse o meu bem-estar tal como eu nutria o dele. Pedia ao homem da sua vida, que se tornasse o homem da minha. 

Foi bom, foi louco, foi duro, foi desnecessário, foi tudo, mas já não pode ser mais nada pois por mais que te queira, por mais que te deseje, eu tenho que me soltar das amarras cobertas de ferrugem e lodo com as quais me deixas-te no fundos da tua casa. Acima de tudo, tenho que me velar em condições, tenho que me enterrar e permitir-me o meu luto de mim, pois a menina demasiado sonhadora e inocente que cativas-te morreu e, depois de nos chorar, tenho que a chorar a ela. Apesar de tudo, não me sinto triste por me despedir dela pois mulheres como ela não têm lugar num mundo como o nosso, vivem nos contos de fadas e são felizes para sempre. 

Hei-de enterra-la em breve, num local onde o sol traga vida ao chão, às árvores e às pedras, onde os pássaros cantam até de noite e onde um riacho puro faz rolar pequenos seixos. Era aí que ela gostava de ser enterrada, pois era aí que ela vivia. Hei-de visita-la de tempos a tempos agradecendo-lhe o sacrifico que me proporcionou ser quem um dia eu serei, um ser deste mundo. Obrigado minha pequena, era bom ver o mundo pelos teus olhos. 

E ironia, dou por mim a chorar não a tua perda mas a perda de mim, pois a ti, eu já não te choro, já não te consigo ver como uma perda mas antes um fatalismo, uma tragédia grega em que a donzela padece aos infortúnios dos deuses e tu, foste o seu carrasco. 

Estarás ainda no meu pensamento sei lá eu quantos mais anos ou mesmo séculos. Esquecer-te-ei eu algum dia? Nunca. 




Liz

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