-perdes-te alguma coisa;
-estás extremamente nervoso e precisas de fazer algo porque se paras, rebenta-te uma veia na cabeça;
Sentaste-te na cama e eu de frente para ti sentei-me também. Estávamos em Dezembro mas estava um dia bonito, quente e isso ajudou a disfarçar o clima gélido que se sentia naquele quarto. Deixei que fosses tu a falar, que falasses tudo de uma vez, como sempre fiz nas nossas conversas/discussões. As palavras que ouvi já as tinha imaginado mas nunca em tempo algum imaginei a sua materialização e nunca da forma como o fizeste, a sangue frio.
"Não me sinto um bom namorado, o namorado ao qual te habituei, nem sequer me sinto um namorado. Não me apetece dar do meu tempo, fazer coisas coisas que o outro quer mas que eu não quero fazer, perder o meu tempo que quero só para mim. Até quando tu dizes que nunca irei encontrar ninguém que me faça rir como tu fazes....tu enervas-me. Quando estás muito bem disposta ou muito feliz e de tudo fazes uma piada enervas-me! Não me apetece estar com ninguém nem contigo....e nem amor me apetece fazer. Só quero estar quieto"
Eu ouvi isto, cada palavra, cada frase, e tinha-me doído menos se me tivesses batido. O coração disparou louco e os olhos não conseguiram conter cada palavra tua que imediatamente me escorreu pela cara e me manchou as calças de ganga. Foi uma torrente de choro. Foi um soluçar desesperado que eu não consegui conter e que te deixou em pânico Soltas um "eu não quero acabar Liz! Eu não quero acabar contigo!" e chegas-te para mim do mesmo jeito que nos precipitamos para um bebé quando este cai e se magoa. Afastei-me, afastei-te e enxuguei as lágrimas. Preparei-me para o que vinha.
Voltas-te a dizer que não querias acabar comigo, que isto não seria o nosso fim, mas mais uma fase! Mais uma "crise" igual às outras 4 que já tinhas tido durante o ano, desde que te foste embora, desde que nos deixas-te em prol de ti do que tu procuras para ti. És egoísta egocêntrico e as vezes mesmo megalómano, mas na relação que talhas-te comigo sempre te deste por inteiro, mais do que eu até e isso fez que durante um ano longe de ti me agarra-se ao que tivemos e ao que me prometias que ainda íamos ter. Era só mais uma fase dizias tu e, não sei se por aflição ou por finalmente teres noção das barbaridades que disseste, agora também tu choras.
Passam-se duas horas. As duas horas mais tristes da minha vida, duas horas em que estou certa de ter perdido 5 anos de vida e vigor pois saí de perto de ti completamente consumida, exausta, curvada perante as evidencias. Foram duas horas em que falámos de tudo, do que passámos e do que poderíamos ter vivido, Duas horas em que eu pela primeira vez tive coragem de te dizer tudo o que pensava e sentia, coragem para te dizer que a única relação que agora consegues nutrir é a que construíste contigo mesmo.
"Não estou preparado para isto, para que vivas comigo. A minha vida é o trabalho, não tenho tempo nem para mim e sei que não ia conseguir ser o apoio que mereces e precisas num momento de mudança como este"
Não só me fizeste sentir um estorvo, como um estorvo inútil que por alguma razão achavas incapaz de construir a sua vida e a sua independência num país que não o seu (coisa que tu conseguiste) como ainda me fizeste sentir que a ir ter contigo, iria concorrer pelo ar que respiras. Mais tarde viria a descobrir que vieste a casa com esta conversa pensada.....mais traída me senti.
A luz morna que entrava pela janela transformou-se num ar gélido onde quase conseguia ver a minha respiração. Eu estava gelada e não te podia pedir calor como me habituei a fazer. Das vezes que olhava para ti via que também tu não previas que as coisas corressem como estavam a correr, também tu estavas meio que em choque mas comigo, por eu te dizer que acabou aqui, que eu estou cansada disto e que para mim já não dá mais. E passaram-se duas horas....e eu não me conseguia ir embora. A ideia de que o amor da minha vida acabava ali, naquele quarto, naquela cama, onde tantas vezes o validámos, matava-me por dentro. Mas que amor é este que nos faz sofrer deste jeito? Que nos faz chorar em coro durante horas sem que o outro o saiba como consolar? Isto já não era amor...era tortura.
Levantei-me, tinha que ir trabalhar (coisa que acabou por não acontecer pois tinha a cara em obras). Vesti o casaco, fui à casa de banho ver se havia maneira de disfarçar o estado em que me encontrava voltei ao quarto e olhei para ti. Por momentos, quando te vi sentado na cama, um homem com o teu tamanho enrolado em si mesmo, chorando, quase te tomei nos braços e te aconcheguei no meu colo...e foi o que fiz. Pedi-te um abraço pois não conseguia virar costas a 3 anos da minha vida sem lhes dar pelo menos um abraço. E que abraço...pelos deuses, que abraço!
Não sei quanto tempo durou, sei que o choro que tinha conseguido controlar se soltou de novo e não havia forma de o agarrar. Os teus braços À minha volta, os meus apertando-te o corpo e as mãos passando pelas tuas costas como se procurando uma memória física que me fizesses lembrar um dia de como era abraçar-te. Tu passavas os dedos no meu cabelo, beijavas-me a testa e dizias baixinho "calma.....respira....." enquanto eu afundava a cara no teu peito e agarrava a tua camisola.
-eu não sei como isto se faz....
-e eu nunca o fiz a gostar tanto de alguém, respondes-te
Olha-mo-nos, beijámos.nos, e um não conseguia soltar o outro. Soltei em sussurro um amo-te...disseste que um dia....um dia tudo ia ficar bem e nós íamos ficar juntos. Afastei-me, baixas-te a cabeça e saí.
Podia escrever sobre o que se passou nos restantes dias, podia dizer o que me apeteceu fazer-te perante os 5 dias que se seguiram e perante as atitudes que tiveste. Podia enxovalhar-te e mostrar ao mundo a merda de pessoa e de homem que consegues ser quando o teu orgulho se sobrepõe a ti mas não vale a pena. Prefiro pensar em ti neste momento, sofrido como eu sofri, com medo de me perder, de perder aquela a quem chamas-te mulher da tua vida, de quem querias filhos e uma vida a dois, vida que cada vez mais sei não ser para ti. Perdoei-te mais do que uma vez, por mais do que um motivo, mas deste vez não deu, não deu mais. Deixas-te-me por minha conta na fase mais complicada e triste da minha vida e isso não faz, um amor verdadeiro e para a vida toda não faz isto.
E agora, que sei eu de ti? Se me sofres ou me procuras, se já te arrependes-te ou se continuas a achar que assim foi melhor. Se já tens quem te aconchegue nas noites frias que só nesses países existem ou se ainda guardas o lado direito da cama para mim, tu, que nunca te ajeitas-te a dormir comigo e eu, que sempre dormi colada a ti. Deixei-te, deixo-te mas não te consigo virar as costas, talvez por hábito, necessidade, talvez, por durante tanto tempo te ter visto como o homem da minha vida.
Liz
Este post é lindo de tão intenso que é! Faz-me lembrar do meu próprio passado recente e se por momentos pensei deixar de o ler a meio... não o consegui fazer!
ResponderEliminarComo lidar com tudo isto?
Ainda procuro descobrir!
Bjo*
Não se lida....se tens dias que pensas que por um ponto final foi a melhor coisa que podias ter feito, tens outros....em que nem da cama queres sair pois tudo te dói, por dentro e por fora.
ResponderEliminarCom o tempo vamos chegar lá e com o tempo deixará de ser uma memoria dolorosa para se tornar num passado de crescimento.
Bjos
Parece-me um bom plano...
EliminarMas o tempo, enquanto passa, dói que se farta...
Bjo*
Dói e neste momento tenho sérias dúvidas se algum dia vai deixar de doer. Se algum dia vou olhar para ele e não tremelicar por todos os lados....Graças aos deuses ele nem no mesmo país que eu está.
ResponderEliminarBjo
Eu não tenho nenhum "ex" perto de mim... desde a que ficou amiga, há que nunca mais quero ver... e passando pela que não consigo esquecer!!
EliminarMas... tenho-as todas num sítio que não se conseguem arrancar...
Bjo*
Estou tramada que este cheira-me que não só ficou marcado como estragou aqui qualquer coisa....a inocência com que via isto.
EliminarMas é como dizes, é colocar na gaveta e ser feliz...um dia destes
Bjo
Impossível não ficar emocionada... Que dor Liz. ***
ResponderEliminarÉ por isto que preciso de escrever aqui- Para ver se exorcizo de uma vez toda a dor e raiva que ainda sinto cá dentro... ***
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