Há uma história que desde miúda me comove pois tem tanto de bonita como de triste. Ainda andava eu pela mão da minha mãe e havia um casal que quando passava por nós parava sempre para dois dedos de conversa e eram pessoas agradáveis. Lembro-me que a senhora sempre me pedia um beijinho e eu, bicho do mato e envergonhada, dava de bom grado.
Cresci e vê -los subir e descer a minha rua, sempre de mão dada ou de braço dado e o tempo foi passando por nós de forma inversamente proporcional, eu crescendo e eles tornando-se um daqueles casais de idosos de que às vezes ouvimos falar. Ela era muito bonita, tinha um ar sereno e simpático, inspirava-me confiança e ele devia ter sido uma estampa de homem nos anos 50, pois quando a idade já lhe tinha mudado o físico e as feições continuava a ter um porte altivo, sempre muito direito e bem vestido. Olhava para eles e perguntava se algum dia ia ter o meu velho para andar comigo de mão dada e ser assim, simplesmente feliz.
Perguntei à minha mãe porque nunca os via com os filhos. Ela disse-me que era porque eles não os tinham, a senhora era estéril mas não foi por isso que desistiram um do outro, um milagre, tendo em conta o peso que tinha naquela altura a existência dos frutos do casamento. Ficaram juntos uma vida inteira e a senhora encontrou para sim uma forma de suplantar a falta que os filhos lhe faziam: recheou a casa de bonecas de porcelanas. Todas diferentes, uma mais bonita que a outra, loiras, morenas, ruivas ou indianas, com trajes tradicionais ou de época, mulheres feita ou meninas de colo. Vi a colecção uma única vez e para uma menina de 8 anos, foi como chegar ao paraíso! Eram perfeitas, mas acima de tudo, eram amadas e talvez fosse esse facto que as fizesse mais bonitas que todas as outras bonecas de porcelana que já tenha visto na minha vida. O marido, apoiando este placebo da alma, sempre que encontrava mais uma filha para a colecção trazia-lha numa caixa enfeitada com um papel bonito e um laçarote pomposo. Era uma casa sem filhos, sem crianças, mas cheirava a água de colónia, daquela a que os bebés cheiram, pois a senhora usava-a para perfumar os vestidos das suas meninas. Eram felizes.
Um dia vi-os a passar na minha rua mas o homem forte e altivo era agora um velho curvado que se movimentava com dificuldade apoiado no braço da sua companheira da vida. Uns tempos depois, vi-a descer a minha rua vestida de negro, sozinha. Um enfarte levou-lho e nem lhes deu tempo para se despedirem, tendo ela ficado viúva numa casa cheia de bonecas órfãs. Perdeu o brilho que tinha, aquele ar viçoso e bem cuidado e após a minha mudança de casa, perdi-lhe o contacto.
Vi-a hoje, mais uma vez, descendo a minha rua, como se o tempo tivesse voltado para trás. Está bonita, parece que os anos não passam por ela como passaram por mim mas reconheceu-me. Mais uma vez, pediu-me um beijinho, disse-me que estava linda e mandou um beijo à minha mãe. Por momento, eu voltei a ter 8 anos, ela voltou a ser uma senhora agradável e as bonecas de porcelana, voltaram a cheirar a água de colónia.
Liz

Honey... I'm starting to love your stories! That's twice today you amaze me...
ResponderEliminarI´ve told you I would be able to surprise you!
EliminarObrigada meu querido :)
Keep up the good work! :D
Eliminarohhhhh the pressure!!!!
Eliminar