quinta-feira, 11 de abril de 2013

Vida de Estudante

Acabo de escrever mais uma fita, desta vez, para a pasta de finalista da minha querida M. e nunca pensei sentir o meu coração tão pequenino por um gestão tão simples. Parece que ainda ontem eu a praxava nas escadarias da nossa Faculdade, eu doutora demónio que infernizava a vida aos meus caloiros e ela, caloira dondoca que mal sabia o que a esperava, acabando por se tornar uma das minhas unicórnios. 
Escrever esta fita fez-me lembrar dos meus tempos de faculdade, de como aqueles anos foram até agora o meu melhores. Já entrei na faculdade com uma diferença de cerca de 3 anos para as minhas restantes companheiras de luta mas em muitas situações, era mais criança e mais desavergonhada que elas, acabando por me tornar uma espécie de palhaça honorária enquanto caloira. 

Era todo um mundo novo, tudo era diferente, divertido ou proibido e eu adorava sentir-me como me sentia pela primeira vez junto de "desconhecidos": aceite. Foi ao fim de poucos dias que cheguei à conclusão que algumas daquelas pessoas que comigo andavam pelas ruas de Lisboa a gritar os cânticos do curso, com a cara pintada de azul ou com a roupa toda vestida do avesso, que padeciam do mesmo distúrbio mental que eu acabariam por um dia se tornarem as minhas melhores amigas. Sei que há um sem numero de pessoas que critica as praxes e os rituais académicos mas eu não me arrependo de nada, somente talvez, de não ter esticado a corda mais vezes e me ter deixado ir na maré. Lembro-me como se fosse hoje do baptismo pelo meu padrinho (um puto mais baixinho e mais novo que eu) e de nesse dia termos "enterrado" o caloiro: ia ser doutora nessa noite.

Vestidas à pressa numa das casas de banho na faculdade, de cara lavada como manda a tradição e com um cansaço que nos tirava o ar viçoso de novas doutoras, envergámos pela primeira vez o traja académico e orgulhosas que nem uns pavões saímos para a noitada. Incrível como ainda hoje não consigo controlar uma lágrima ao lembrar-me do momento que me fez sentir uma espécie de estrela da companhia ao ver-me de traje preto solene e de capa traçada, parecia uma senhora.

São incontáveis as memorias que trago no meu peito desta fase maravilhosa da minha vida, com tantas noitadas a queimar pestanas, com outras tantas noitadas a queimar o fígado, com o sufoco que sentia antes de entrar para uma sala de exame ou do alívio e orgulho de ver que tinha mais uma cadeira feita. De pouco ou nada me privei e ainda assim conclui o curso em 3 anos, "feito" que só a S. equiparou comigo. Lembro-me do nosso primeiro rally tascas e de eu ser a única em condições de trabalhar como carro vassoura e ajudar as outras a descer as colinas do Castelo à baixa. Lembro-me do nosso segundo rally tascas e de já não me lembrar de chegar ao Castelo, muito menos de o descer. Lembro-me das festas do curso e de a todas ter levado comigo o H., que mais tarde, se tornou uma espécie de membro honorário da malta porreira do curso. Lembro-me de ser a única com carro e por isso ter ficado a seco a maioria das noites ,mas ainda assim, fazia a festa, deitava os foguetes e apanhava as canas.

Lembro-me dos sonhos que tínhamos e de como ia ser "fácil" arranjar emprego pois éramos boas alunas. Lembro-me que uma noite de apenas 4 horas era bem dormida e lembro-me de tirar sonecas nas aulas de historias dadas por um múmia. Lembro-me de que ali a minha opinião e presença contavam e eram pedidas e acima de tudo, lembro-me de como era tão feliz e me sentia tão bem comigo mesma. Não passou assim tanto tempo, mas o tempo que passou fez-me render a algumas das evidencias que me trouxe. Tantas vezes rouca de tanto cantar, tantas vezes com os pés doridos pelos maus sapatos do traje, tantas vezes benzi a minha capa, tantas vezes desejei só mais um ano. No dia da bênção das fitas "morreu" ali uma fase linda da minha vida, mas para sempre vai morar dentro do meu peito e no tecido do meu traje negro que jurei que um dia, se morresse estudante, seria a minha mortalha. 

Éramos felizes e sabia-mo-lo. 


Liz

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