quinta-feira, 9 de maio de 2013

Desafio de Escrita

Andava eu entediada como o raio quando descubro um texto simplesmente delicioso sobre limões apaixonados e carroças e rapazes a dormirem a sesta! Como vi que esse texto tinha nascido de um desafio da escrita (e sendo eu uma fuça que não pode ver nada) claro que me senti logo tentada a mostrar os meus dotes de ficção e cenas de escrita e também eu vou pegar nas palavras que me são dadas para o desafio. 


O desafio foi lançado pela Pseudo, e o objectivo é escrevermos um texto, que terá que ter, obrigatoriamente, 10 palavras fornecidas pelo desafiador. O texto pode ser pequeno ou grande, ficção ou comédia, drama ou terror, é à escolha do freguês, e as palavras aparecem pela ordem que quiserem e podem ser flexionadas para adaptação ao contexto da frase. As palavras são as seguintes:
carroça
fio
sexo
ponte
mente
rir
espreguiçar-se
palrear
limão
livro

Brace yourselfs.....A big text is coming!

Há muito muito tempo, numa aldeia perdida entre montes e vales, morava uma jovem rapariga sonhadora que ocupava a maior parte dos seus dias em divagações, sempre rodeada por pequenos livros de contos e fábulas que lhe eram enviados pela madrinha que morava na cidade grande. Apesar de muito bela, tinha uma saúde muito frágil, o que a fazia estar quase sempre dentro de portas, resguardada dos fortes e sadios ares do campo mas, ainda assim, tinha como suas características uns olhos preto-azeitona muito brilhantes e uma pele rosada que lhe davam um aspecto mais saudável do que o da maioria das jovens conterrâneas. 
Passava a maior parte do dia à janela, muito observadora e atenta, conhecia os passos de cada habitante, as horas a que cada um saía de casa e quando devia regressar, quais eram as suas profissões e se o dia lhes tinha corrido bem ou não. A sua capacidade de observação era tão sagaz que sempre que algum pastor perdia um animal ou alguma mãe procurava a sua criança, a primeira pessoa a quem os aflitos se dirigiam era a ela.  A aldeia não era rica mas tinha fartura de gente e alimentos, fartura essa que não lhe garantia visitas amiúde por parte das outras jovens, sendo que a sua única companhia era um gato vadio, que aproveitava o alpendre soalheiro da menina para apanhar sol, ficando ela deliciada com a sua elegância felina que o deixava espreguiçar-se vagarosamente num espaço com a largura de pouco mais de um palmo.
Contudo, era da pessoa que lhe despertava maior curiosidade que ela menos sabia. Tratava-se de uma velha muito velha, curvada pelos anos e pelos campos por si tantas vezes lavrados, que só vestia de negro e nunca ninguém tinha visto rir, sendo que na aldeia era conhecida como a velha dos limões, de tão azeda e amarga ser sempre a sua expressão. Mas se os outros se afastavam dela, a menina só a queria mais perto, só queria saber o porquê de tal amargo de vida, o que lhe teria sucedido para se ter tornado uma velha solitária e sempre perdida nos seus pensamentos. Só saía de casa para ir à missa ao fim do dia e, por alguma razão que a menina desconhecia, o seu pachorrento gato fazia sempre questão de acompanhar a velha, como se fosse aquele o momento do dia que dedicavam um ao outro e ela reparava que, a velha azeda não queria ninguém perto, ia todo o caminho a palrear com o gato, como se ele a entendesse. Faziam um par caricato. 
Os anos passaram, a menina fez-se mulher e sob a sua janela aparecia agora um jovem rapaz, meio franzino mas com os mais belos olhos azuis que a menina já tinha visto na sua vida. Todas as noites, depois da ceia, esperava-a escondido atrás da carroça que usava para se deslocar, pois moravam em pontas opostas da aldeia. Tinha-a visto pela primeira vez nas festas do santo padroeiro em que a menina, apesar de não ter saído de casa, era a mais bela moça que já vira na sua vida, ricamente vestida num belo vestido branco salpicado com pequenas flores de cerejeiras bordadas à mão e com o cabelo entrançado com um vistoso laço de fita. Ele trazia o seu fato de domingueiro, num azul que competia com os vivos e pestanudos olhos azuis que herdou de uma avó que nem nunca conheceu. Dizem que a isto se chama amor à primeira vista, para eles, era a simples necessidade de todas as noites se verem, ela da sua janela, ele empoleirado do chão. O desejo entre eles foi crescendo e certa noite, não conseguiram mais resistir aos avanços do corpo e da alma e a menina saltou a janela, ela tão frágil e magra caiu no braços fortes do rapaz que se fez homem a cavar no campo e a na pastorícia e, nessa noite, consumaram o que pareciam sentir desde sempre. Depois daquela noite vieram muitas mais noite de sexo e amor até que o inevitável se deu e a menina ficou de esperanças. Desgraça das desgraças, como iria um corpo franzino que não aguentava os ares do campo suportar uma gravidez? A família dela expulsou o rapaz da aldeia acusando-o do assassínio da sua amada ainda viva, ficando ela apenas com uma recordação do amor da sua vida: um frágil fio de prata que ele lhe dera numa daquelas noites. Os meses foram passando e ela cada vez mais fraca mas que tinha agora uma lufada de ar fresco todos os dias: a velha dos limões visitava-a, dizia que tinha sido o gato a pedir-lhe para o fazer. Todos os dias a velha lhe lia umas cartas tão velhas com ela, com manchas de lágrimas e esborratadas pelas suas mãos, onde moravam as palavras do seu grande amor que um dia foi para a guerra e pelo qual ela esperou a vida toda, mas ele nunca mais atravessou a ponte da aldeia, ele morreu em batalha. No amontoado de cartas estavam duas fotos, uma dele, um belo oficial do exército e uma da velha, dos tempos em que o cabelos brancos eram negros e cacheados e a pele ao invés de enrugada era lisa e frágil, fazendo-a parecer uma boneca de porcelana. Para a menina quase a ser mãe, ter aquele consolo de uma alma sofrida como a sua foi o bálsamo dos dias maus e a luz dos dias bons, deu-lhe forças, esperança, talvez o seu menino dos olhos azuis um dia voltasse, talvez um dia ela o visse passar aquela ponte. Na sua mente e no seu coração sabia agora quem era aquela velha amarga de quem ninguém gostava, aquela velha era ela mesma personificada se o seu amor um dia não voltasse, era o seu futuro, mas ela sabia que ele ia voltar, ele tinha que voltar!
Chegou o dia do parto, foi difícil, foi doloroso, foi demasiado para a frágil menina que não sobreviveu para ver o seu amor voltar. Mas ele voltou. Voltou passados poucos anos, procurava a sua amada e o seu menino, procurava a velha de quem a menina lhe falara em tempos e procurava o gato que falava com humanos. A velha partiu levada pelas doenças que só os velhos têm, o gato, com o desgosto, deixou a aldeia para nunca mais ser visto - reza a lenda, que era o amor da velha reencarnado - e o seu menino, encontrou-o à janela onde um dia se apaixonou pela mãe dele, lindo, forte, de pele rosada, com um frágil fio de prata ao pescoço e com um olho azul céu e um olho preto-azeitona. Infelizmente o rapaz do campo que se fez doutor não foi feliz para sempre mas, dizem até hoje, que foi o melhor pai do mundo.

Liz


Passo o desafio a quem o quiser aceitar :)

13 comentários:

  1. Psshht, o desafio foi lançado pela Pseudo ;p

    http://pseudoblogdapseudo.blogspot.pt/2013/05/hoje-apresento-vos-outro-desafio-sim-eu.html

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    1. Oh eu sei mas quem me desafiou foi o Mustache lol

      Mas ja esta.corrigido! :)

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  2. Oh Chata, antes que fiques a pensar (ainda mais) mal de mim, eu não quis ficar com os louros de ninguém.. Eu aceitei o desafio da Pseudo, meti no meu blog e a Liz viu aí.. Just that.. E agora vai escrever tu uma historia, que eu vou comentar esta!

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  3. Liz, gostei muito da tua história! :) e haja alguém que goste de escrever muito! :)
    Adorei as tuas descrições das personagens! Consegui imagina-las na perfeição, e tirando a "cara azeda", a velha fez-me recordar a minha avó! Quando ela era viva, a nossa gata andava sempre atrás dela de um lado para o outro e também a minha avó falava para ela! :)
    Outra coisa que gostei na tua história foi não seguires o esperado, dando um sabor agridoce ao final. A morte dela durante o parto, sem voltar a ver o amado, ou mesmo transformar-se naquela figura da velha que ela tanto temia ser o seu futuro.
    E vou ser muito sincero, na parte final estava a arrepiar-me enquanto lia.. Não sei se por causa do texto ou do ar condicionado, mas como o AC tava desligado, acho que foi por tua culpa! ;)

    Obrigado por esta história!
    ***

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    1. Obrigada Mustache :)

      Acho que ficou mais triste do que esperava, do que tinha imaginado no início mas a verdade é que a fui escrevendo como saía :)E ainda bem que te relacionas-te com a história....ela tem qualquer coisa de cada um de nós, todos nós conhecemos alguém assim :)

      ***

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    2. Por isso mesmo ficou tão boa, por não teres seguido os padrões "normais" de uma história, ou seja, um final feliz! Nem todas as histórias são felizes, nem todas as histórias acabam bem, e tu mostraste-nos isto muito bem.. A minha historia ia ser mais no estilo de comédia, daí a forma como a comecei, mas depois a mente foi-me levando para outros caminhos, eu dei-lhe a mão, e segui-a. Não quis foçar a ideia inicial a sobrepor-se ao que ia surgindo, e por isso, a historia ficou melhor!

      E tu ainda conseguiste dar aquele toque especial, que permitiu a algumas pessoas, verem nas tuas personagens, pessoas que conhecem da vida real!

      Sou muito sincero, tens aqui, na minha opinião, um texto muito muito bom!

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    3. (e a baba que me escorre violentamente pelo queixo...)

      E eu adorei a tua.historia! Porque tem.um.limão e uma limoa como herois e porque tem.um final feliz e nos precisamos tanto de finais felizes!! Ê isto que adoro na escrita..a possibilidade de, com as mesmas palavras, termos um infinito de textos à nossa disposicao :)

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    4. Haha então espero que estejas de babete! :)

      Tens razão, 10 palavras apenas, e tanta gente a fazer histórias tão diferentes! A escrita é mesmo magia!
      Por isso é que eu desejo tanto escrever um livro!

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    5. És tu e eu mas falta-me aquele je ne sais quois...as história os personagens...aquilo que me agarra!!

      Boa sorte na tua luta :)

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    6. E se eu te disser que já tenho toda uma história na cabeça, do principio ao fim, para passar para o papel? :)
      Só me falta mesmo o tempo e coragem para a começar.. :)

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    7. Nesse caso meu amigo, o tempo arranja-se! Aposta masé na coragem e segue com isso para a frente! :D

      Eu faço cheerleading boa?

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  4. Liz, invejo-te agora. Gostava de ter sido eu a escrever este texto. Belíssimo, triste, e muito bom!
    Dos que fui lendo e tomando conhecimento, ex aequo com o da Afrodite e o do Mustache. :)

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    1. Wow...obrigada, nem sei bem que dizer...mas obrigada :)

      E continua com estas ideias!***

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