"Diz a lenda que o termo foi cunhado na época dos Descobrimentos portugueses e do Brasil, quando esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou acções. Provém do latim "solitáte", solidão.
Uma visão mais especialista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. A génese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana."
Quem nunca sentiu saudades? Quem nunca sentiu o peito queimando só de pensar numa pessoa, num local, num momento, numa memória? Quem nunca deixou escorrer uma lágrima silenciosa recordando um tempo em que se foi feliz? Então nós, os portugueses, que inventámos a palavra, seremos sem dúvidas todos mestres e doutores em saudade.
Há saudades boas, aquelas que nos colocam um sorriso no rosto ao nos lembrarmos daquela vez em que numa mesa com amigos éramos felizes e não sabíamos. Há também as saudades más, as saudades de quem não devíamos ter, as saudades de quem não as merece. Mas as piores saudades são aquelas que nos remetem para uma zona límbica, em que pensávamos já não nos lembrar mais daquele momento perdido e, de repente, ele surge-nos na memória fazendo o coração dar uma passada descompensada , colocando na garganta um nó apertado e asfixiante. E como se lida com estas saudades que não devemos ter mas que mesmo assim teimam em surgir? Elas não pedem licença, não chegam de mansinho, instalam-se e tornam-se o elefante cor-de-rosa na sala das porcelanas, incomodativas e caóticas mas surpreendentemente graciosas.
Há quem beba, há quem fume, há quem faça limpezas, há quem faça exercício, há quem se penitenciei tentando cansar o corpo e calar a mente, repudiando aquele momento que agora nos assombra, chegando mesmo a dar-nos um cheiro, um toque, a noção física de que se eu fechar os olhos, ele vai estar ali. Relembrar uma risada, um abraço, uma piada só nossa, uma promessa. E o pior? Saber da ainda existência de uma linha ténue, qual fio de aranha, que ainda nos liga ao objecto da saudade e que nos dá a certeza de que, neste momento, eu sei o que ele pensa.
Dizem que toda a gente sente saudades mas que só os portugueses a sabem explicar pois claro está, fomos nós que a inventámos. Se eu consigo explicar a saudade? Não, só consigo dizer por palavras a reacção física que ela tem mim e de como ela me dá uma falsa sensação de aconchego e calor quando este teima em não vir de outra qualquer forma. Podemos até sentir saudades de nós mesmos, daquele Eu que dizíamos não gostar mas que hoje vemos que guardava dentro de si todas as alegrias do Universo e que, sem sabermos bem porquê, afastámos de nós para um sítio escuro pois o luto pedia escuridão e o Eu é feito de luz.
As saudades não podem ser castradoras nem angustiantes pois aí já não são saudades, a isso eu chamo sofrimento e as saudades não devem implicar sofrimento. As saudades são o sol morno do fim de tarde numa casa no Alentejo, são a brisa marinha de quando estamos deitado na toalha numa praia quase vazia, são os bons dias dados como quem abraça, é olhar ao espelho e perguntar ao reflexo "por onde tens estado?", são sopa quente numa noite fria e são, acima de tudo, a prova de que em tempos, ainda que por meros segundos, fomos felizes, mesmo que não o soubéssemos.
Liz

Andamos claramente inspirados...
ResponderEliminarSol praia e gargalhadas ou há moiro na costa?
Olá Pontinho!
EliminarOlha nem uma coisa, nem outra....nem outra! Nem moiro, nem tuga nem viking (pacanda recente ahaha) só mesmo inspiração de quem tá de férias ;)
As saudades são f...das, principalmente aquelas que não se matam e que vão moendo e remoendo... Acho que se escondemm, quando substituidas por novas memórias ;) acho eu que é assim que se faz ;)
ResponderEliminarA essas saudades é dar.lhes o beneficio de nos tomarem umas horas de vez em quando...é o que faço com as minhas :)
EliminarUmas horas é muito tempo de antena para essas saudades...
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