Não saberia viver com um homem que nutrisse uma suprema adoração por mim. Que visse em mim o seu nascer do sol e à noite, eu fosse o seu luar, um homem, que em suma, vivesse para mim.
É um cargo que para o qual sei não estar minimamente preparada, ou para o qual conseguisse um dia estar à altura pois quando alguém nos adora deste jeito, deixa de nos ver como seres humanos e entramos no território dos deuses e eu, sou uma mera humana que nem de alta "estirpe" é.
Quando alguém nos adora deste jeito imputa em nós uma obrigação: estar à altura. Todos os dias temos a obrigação de dar provas aquela de que sim, realmente, nos alimentamos de néctar de ambrósia e temos poderes mágicos, como derrotar um exercito sozinhas ou abrir os mares. É um cargo castrador saber que somos adoradas e, quando isso acontece, por norma temos duas hipóteses: ou realmente fazemos por nutrir a adoração do outro ou continuamos a nossa vida de deuses e o outro, se quiser, que se agarre às migalhinhas divinas que nos podemos dispor a dar todos os dias. As duas facetas são injustas, a primeira para nós, que esquecemos o "eu" e a nossa individualidade e os nossos egoísmos em prol do comum mortal que nos adora, e a segunda, porque o pobre do mortal se vê todos os dias a subir o Cáucaso com uma pedra as costas para no fim da escalada ela rolar monte abaixo, uma e outra vez. A adoração não é boa, não é saudável e é algo que nunca mais quero ter numa relação. O que procuro chama-se admiração e isso, é uma coisa muito diferente.
Eu ja adorei, eu já fiz de um homem um deus vivo e vejam o que isso me trouxe: um coração maltratado, um orgulho ferido, um ano de vida deitado aos cães e um sentimento de vazio e de solidão que durante demasiado tempo, me fez procurar nele o oxigénio para os meus pulmões. O endeusamento do outro apaga os defeito e exalta as qualidades, envolvendo-o numa aura de quase misticismo que nos agarra e nos constringe a um dia-a-dia revolvido em torno daquele homem perfeito que nem parece humano de tantas que são as qualidades e tão poucos e insignificantes os defeitos. Como ninguém é assim, o que conseguimos, contas feitas, é uma grande desilusão pior do que a de saber que o pai natal não existe, pois o sonho materializou-se num ser que nem a nossa amizade merece, quando mais, o nosso amor puro e cru. E o que mais dói é a noção de perda do ídolo, do herói que só aos nossos olhos existia, a desilusão.
Quero um homem que me ame, que me trate como eu agora sei merecer ser tratada, que me faça feliz mas, que no meio destas minhas vãs exigências, também me veja como ser humano que sou, coberta de defeitos e com alguma paredes ainda no tijolo. Quero respeito, admiração, companheirismo e no fundo no fundo, se eu me conheço, o meu homem, será o meu "deus" mas eu não serei a sua mortal, mas a sua parceira olímpica.
Liz
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