terça-feira, 26 de março de 2013

Peças

Um dia, quando morrer, quero "ir para peças". Acho a maior falta de humanidade enterrar um corpo bom, cheio de órgão viáveis para ser comido pelo bichos ou para lhe chegar um fósforo desperdiçando assim uma boa mão cheia de vidas que precisam daquilo de que o corpo já não precisa. Choca-me que as pessoas tenham pelo corpo morto tanta ou mais consideração do que têm pelo corpo vivo.

Em vida enchem-no de comida que não presta, de fumo, de drogas, privam-no de sono, fazem esforços mal calculados e desnecessários, sujeitam-no a sapatos de salto alto ou a más cadeiras, em posições ainda piores. Não o hidratam, não fazem exercício e por vezes, até o sujeitam a riscos para os quais o corpo não foi feito pois "é giro". Passam uma vida inteira a sentirem-se eternos, super poderosos,  invencíveis e só felicitamos o ter saúde quando essa condição já é passado. Em vida, pensamos que o corpo aguenta tudo, aceita tudo e merece tudo mas na morte, é com a maior reverência e ritual que o tratamos quando para mim, o corpo não passa de um casulo para aquilo que realmente importa, a alma. 

E este casulo, um dia vai ficar vazio e o facto de o coração bater ou de os pulmões serem capazes de respirar sozinhos já não vai importar, pois já não existe "aquilo" que lhe impunha essa continuidade mecânica e é neste momento que para mim, o corpo, realmente se torna fulcral pois pode renascer outra vez, pedaço a pedaço, em outros corpos que não o seu. 

Acidentados que entram no hospital em morte cerebral são os dadores perfeitos pois, segundo rezam as estatísticas,  são por norma jovens e saudáveis mas a sorte faltou-lhes naquele momento. E ao ver aquele corpo inanimado numa cama de hospital rodeado de fios e apitos torturantes e monótonos, quem é que está ali? Será o meu filho, o meu paí, o meu irmão? Será o meu marido ou o pai dos meus filhos? Será que ele está ali ou estarei eu perante um corpo vazio de gente mas ainda cheio de vida útil a ser perdida pela medicação que o mantêm adormecido ou pelo oxigénio que faz bater o coração e irrigar o cérebro, morto? E ainda que um dia acorde, será que nesse dia será o meu filho, o meu pai, o meu irmão ou o meu marido? Não sei pois esta temática ultrapassa-me em demasiadas áreas para as quais não estou de todo qualificada para falar.

Mas eu penso nelas, por vezes estas coisas tomam conta do meu pensamento e eu não as posso ignorar, pois se por um lado seria desligar a máquina de alguém que amo, por outro, é tirar da máquina alguém que é muito amado. Não é uma situação pela qual queira algum dia passar, tenho medo da morte, não da minha mas da de quem amo. Não lido bem com perdas muito menos, com uma tão definitiva como a morte, contudo, se um dia chegar a minha vez de fazer algo por alguém, eu aceito de bom grado ver-me vazia de conteúdo físico, desde que quem amo me mantenha viva. 



Liz


4 comentários:

  1. Já disse o mesmo que tu. Ir para peças e depois cheguem-me o fósforo que no que eu pider ajudo...

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  2. Não podia concordar mais. Para quê ir para debaixo da terra com orgãos funcionais que podiam ter feito a diferença aos ainda vivos? Desmontem-me a proveitem o que estiver bom!

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    1. Ê mesmo esse o espirito!! So acho qie temos que assinar.uma autorizacao qualquet que.cá.nao fucionamos como a lei americana :/

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