O ano passado, os últimos três meses do ano puxaram-me pelas costuras ao ponto de quase as rebentar, tendo sido o maior dos puxões um colectivo, geral e catastrófico diagnóstico médico.
O meu irmão mais velho é um prato de homem. Nunca o vi maldisposto, com mau feitio ou a estragar a festa de ninguém. Era o Travolta aqui da área e não havia miúda nesta espécie de aldeia no meio de Lisboa que não quisesse uma Sathurday Night Fever com ele. Um bem disposto, bem falante e que agarrou a vida pelos cornos e aos 15 anos disse "agora quem manda sou eu!". Se há coisa a que o associo é à gargalhada, assim meio escandalosa como a minha, mas que quando sai se assemelha a uma trovoada bem disposta. É um homem grande (para cima e para os lados) e a primeira memória que tenho com ele é de estar sentada ao seu colo a "conduzir" o seu primeiro carro, um Renault 5. Devia ser tão pequena que tinha que esticar os braços para agarrar bem o volante e estrada, essa, nem vê-la! O meu irmão é assim, estica sempre mais um bocadinho a corda, diz sempre mais uma palavra e come sempre mais um bocadinho. E em Outubro do ano passado deu-nos o susto das nossas vidas.
Ele era doido por motas e não foram poucas as vezes em que a minha mãe o foi buscar ao hospital a "parecer um Cristo" enfaixado da cabeça aos pés e motas, deve ter tido umas 3. Num dos joelhos a rótula partiu para outra e já não voltou mais e tem uma peça em titânio num dos ombros. Todos os acidentes, esfoladelas e idas ao hospital nos assustaram mas nada se comparou ao ano passado. Quando chego a casa depois de um dia de trabalho tenho a minha mãe sentada na cozinha ás escuras, somente com uma pequena luz ligada.
-O teu irmão acabou de sair, não o viste?
-Não, já não vi ninguém. Porquê?
-Vai ser operado
-Oi? Operado ao quê?
- Apareceu-lhe uma espécie de "azeitona" na língua e ele foi ao médico. Não é coisa boa.
Nisto ela começa a chorar e eu não sei o que fazer quando a minha mãe chora. Saí da cozinha e fui tomar um banho. Percebi perfeitamente o que ela me quis dizer e estive a maior parte do duche sentada com a água a escorrer-me pelo corpo à mesma velocidade que as lágrimas me escorriam pelo rosto. Não ao meu irmão....não a ele. Ele nunca fez mal a ninguém, nunca fumou nem é um bebedor compulsivo e regular. Não a ele, não ao meu irmão.
O que mais me assustou foi ver toda a minha família num estado de sofrimento palpável. O meu pai a chorar, a minha mãe a chorar, o meu outro irmão a chorar e eu ali, a sentir-me o elo mais fraco, tão impotente e pequena. Foi operado no meu dia de anos e a única prenda que me dei ao luxo de pedir nesse dia foi que corresse bem. Não quis bolo, não quis festa, só quis que corresse tudo bem.
Dia seguinte, um sufoco de noite pois a cada telefonema nosso os enfermeiros nada sabiam dizer
"Está no bloco", "Está no bloco", "Está no recobro..."
E nós ali, uma noite inteira de coração nas mãos. Dia seguinte e ele continua no recobro. Fomos visita-lo e o medo de que não falasse ou que estivesse em muito mau estado. Num cubículo cheio de luzes, fios e máquinas que apitavam compassadamente vejo-o na marquesa e ele sorri-me. "Então miúda! Mas veio cá tudo?" Ele é assim, ele sujeita-se a uma cirurgia de risco para remoção de um tumor maligno e pergunta se a família foi toda. Senti o peso de 3 Universos a sair-me das costas. O tempo de visita era curto mas deu para descansar o coração, ele está bem e está a ser bem cuidado.
Muito exames depois, muitas promessas a todos os santos e menos 20 kg e ele está curado. Toda a massa tumoral foi retirada e não precisa fazer quimio nem radioterapia. Em Janeiro fez mais umas biopsias para ver se existia mais algum perigo e o exame dizia aquilo que para mim se compara a um bilhete de lotaria
Não foi detectada qualquer massa tumoral
De tudo ficou o susto, muitas panelas de sopa e uma historia para contar aos netos (que eu estou certa que ele irá conhecer). Para mim, ficou a prova de que ninguém é eterno e de que estas coisas não acontecem só aos outros. O meu irmão não morreu, está rijo e mais jeitoso mas isto mudou-o, atrevo-me a dizer para melhor.
Liz
Que bom :)
ResponderEliminarBjo*
sim :)
Eliminarbeijo
Fiquei sinceramente feliz com este post! obrigado!
EliminarBjo*
Eu é que agradeço a tua felicidade :)
Eliminarbeijinho
Um beijinho grande de força para os manos :)
ResponderEliminarTamos uns rijos :) obrigdaada minha querida***
Eliminarainda bem k correu td bem :) pessoas de bom coraçao nao devem passar por esse sofrimentos
ResponderEliminarSabes acho que nem as.más pessoas merecem..é um.estaladao muito grande da vida.
EliminarAgora estamos bem :)
Esta é a minha primeira (de muitas, quer-me parecer) visita ao teu blog. Achei curioso ter achado o teu blog justamente depois de publicares este post. Fiquei muito emocionada, por vários motivos. Pela novidade triste, pelo facto de as coisas terem acabado da melhor forma, pelas memórias que vieram à superfície. O meu tio teve cancro da garganta e infelizmente não resistiu. A minha irmã (que sempre foi a mais boazinha das três irmãs) teve Hodgkins e felizmente tudo bem mas também passámos por esses longos meses de tratamentos, por esse nó no estômago.
ResponderEliminarTudo de bom para ti e para a tua família!
Beijinhos
Oi Joana, antes de mais, bem vinda!! :)
EliminarCom o meu irmao foi tudo.muito.intenso..nem tivemos tempo para pensar!! Mas ja passou...e fico muito feliz pela tua irma! Hodgekins tb nao é pera doce..mas tudo fica bem quando acaba ben :)
Beijinhos e saude para ti e para os teus. Que estas coisas se mantenham.beeem.longe ***
Sabia que tinhas passado por um susto grande por causa de um comentário num post do HSB, só agora conheci a história toda.
ResponderEliminarFico muito, muito feliz que seja uma história contada no passado...por todos vocês:)
Para ti e para o mano um jinho especial;)
Sim eu tinha dito por la alguma coisa....mas senti necessidade de escrever sobre isso aqui :) O nosso corpo é assim, avisa-nos, da-nos pistas, so temos que lhe dar atenção!
EliminarObrigada minha querida :) beijinhosss