domingo, 17 de março de 2013

Sentidos

Sou uma pessoa de sentidos. Rejo-me pelo toque, pelo cheiro, pelo olhar, pelo paladar e pelo ouvido, quase como se fosse um bicho. Há alturas em que os olhos de nada valem, é o cheiro que nos mostra onde estamos e com quem, ou que nos transporta para um local onde já fomos felizes. Há também alturas em que estar junto não chega, tenho que tocar, tenho que criar uma memória visual com as minhas mãos pois só assim consigo criar a memoria perfeita, infinita. Por vezes, só o ouvir de uma certa voz me faz acelerar o coração ou o trava completamente, só aquela voz da qual temos tantas saudades ou que não queremos de todo voltar a ouvir. E depois o paladar...a massa que fica na tigela quando o bolo já entrou no forno, arroz doce acabado de fazer, pele acabada de sair do mar e tão salgada, tão boa. Sou sem dúvida alguém que precisa dos seus sentidos, alguém que tal como o poeta disse "sente tudo de todas as maneiras". Talvez por ser assim seja umas vezes tão feliz e outras tão miserável, talvez por me deixar levar na "aventura dos sentidos" tenha em mim gente que se materializa quando penso naquela característica particular.

Hoje passei a minha tarde numa apresentação de um livro de poesia, uma poesia erótica, de amor, e ao meu lado estava sentado um casal de idosos. Estiveram o tempo todo de mão dada, os dedos bem entrelaçados e enterrados na mão do outro, movendo-os devagarinho, acariciando as mãos e os dedos do outro. Aquelas mãos disseram-me tantas coisas, disseram-me tudo. Quando naquela fase da vida ainda se consegue dar as mãos com tanto amor, com tanto apego, é porque há dentro delas mais amor do que os dois serão capazes de expressar um pelo outro. Ao vê los assim, de mãos tão dadas, não pude deixar de sentir uma certa inveja pois uma das coisas de que mais gosto é de andar de mãos dadas. 

Esteja calor e as mãos estejam suadas ou peganhentas, esteja frio e o facto de estarmos com as mãos fora dos bolsos dos casacos se torne em certa altura doloroso, estejamos nós sentados numa mesa de jantar com os amigos à nossa volta e ainda assim, eu gosto de estar de mãos dadas. Eu não era assim e não sou o tipo de pessoa "muito física" mas se há vicio de relação que adquiri foi o do contacto, constante. 

Estávamos sempre em contacto, fosse esse contacto na forma de mãos dadas ou mesmo abraçados. Um dos melhores lugares do mundo era quando ele me puxava para debaixo do seu braço e eu encaixava na perfeição naquele recanto de homem podendo ficar ali durante horas. Éramos de toque, de abraços, de beijos, de mãos no cabelo e de apalpões dados em locais públicos. Ele conduzia com a mão na minha perna e eu passava-lhe a mão no pescoço. Quando o sinal ficava vermelho, pedia-lhe um beijo e nunca conseguia sair do carro sem me despedir com um beijo demorado e um abraço. Se a tarde era de chuva e pedia cama, o meu sítio era com a cabeça no peito dele e em 2 minutos dormia, pois o coração que ecoava embalava-me.  E o cheiro.....adorava o cheiro dele, não o perfume, o Cheiro! Cheiro nenhum alguma vez será como aquele e nem eu quero que seja pois o meu nariz de perfumista não ia comportar ter que lidar de novo com aquele cheiro em mim. 

Sinto falta do toque, não do dele pois esse agora eu repudio,  mas de ser tocada. Sinto falta de abraços apertados em que encostamos as cabeças e balançamos um pouquinho. Sinto falta de me por em bicos dos pés para abraçar alguém e, sendo eu alta, tem sido complicado ter um destes. Sinto falta daquele sitio debaixo do braço e de por a mão no pescoço de alguém enquanto conduz. Sinto falta de tudo isto mas, acima de tudo, sinto falta de fazer tudo isto de um modo inato, sem ter que pedir licença ou sem ter que perguntar se é conveniente. Preciso de um abraço em pontas e de uma mão grande e áspera enrolada na minha. Preciso de olhar para a minha mão e ver as mãos que vi hoje. 




Liz

9 comentários:

  1. Agora sim... Faltavam três posts e não me apercebi... :p

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  2. Que boa maneira de começar o Domingo Liz. Obrigada minha querida ***
    E quem escreve assim, com esta sensibilidade e com esta paixão, merece "olhar para a minha mão e ver as mãos que vi hoje." E mesmo que a tua tristeza de hoje não te permita ver, eu tenho a certeza que conseguirás o que procuras.

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    1. E que boa maneira acordar e ler uma reaccao destas ao que escrevemos :) eu é que agradeco minha querida!

      Eu tambem acho que sim...tambem acredito que posso set a velhinha de com as maos bem cuidadas que as da ao amor da sua vida.

      Ai como sou cor de rosa!! Ahaha :p

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  3. Intrometo-me na conversa para dizer que quereres e acreditares nisso não significa que és cor de rosa. Só que além de humana tens um bom coração...

    Um excelente domingo

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    1. Oh :) sim acho que sim...so tenho que cuidar melhor dele!

      Um excelente domingo por ai tb*

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  4. É a busca pela transcendência sensorial.
    O toque comunica sempre de forma eloquente... bem mais eloquente, por vezes, do que mil e uma palavras.

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