Passei boa parte da manhã/tarde a fazer as trocas entre armários, tirando do armário do "dia-a-dia" as coisas de Inverno, os casacos pesados e as camisolas de lã, para os trocar pelos primeiros vestidos, camisas de algodão e saias. Para mim o Verão começa assim, a remexer os armários e as gavetas e, como qualquer mulher, a chegar à conclusão que não tenho "nada"para vestir, como se no Verão passado tivesse sido uma nudista por Lisboa.
Contudo, isto é só o começo. Para mim, o Verão é a altura feliz do ano, a altura das pernas a mostra e dos pés descalços. Altura de gelados de todos os sabores, de dias longos e de noites quentes. Altura de ver os corpos expostos e de os apreciar, com maior ou menor pudor. Altura de praia até ao por do sol e de mar até os lábios ficarem azuis. O Verão, é a altura em que exorcizo o mofo que em mim se acumulou trazido pela chuva e pelo frio e renasço para um corpo leve, confortável, aquele que devia ser sempre o meu corpo.
Os últimos Verões foram mais especiais do que os anteriores, pois foram os primeiros Verões a dois. Já aqui falei da casinha no Alentejo e das saudades que lhe sinto, não da casa mas da pessoa que eu um dia fui ali, feliz. As primeiras férias juntos foram perfeitas, era a primeira vez que tanto eu como ele íamos passar uns dias sozinhos só com o ser amado, sem amigos, sem família, sem mais ninguém no mundo. O que se espera de uma espécie de casal de adolescente que já trabalha e tem dinheiro mas que ainda se comporta como dois miúdos que nunca viram ninguém nu antes daquela pessoa que agora amamos? Perdemos-nos um no outro. As "munições" para aqueles dias eram à base de gomas, chocolates, crepes, batatas fritas e bifanas, pois, que mais precisamos comer quando temos a barriga cheia de amor? Da roupa que levámos a maioria ficou na mala pois um bikini e uns calções de banho foram o máximo de tecido com que nos permitimos cobrir. E os relógios, foram o primeiro item proibido naqueles dias que tirámos.
O calor entre nós concorria com o calor alentejano, que faz as cigarras cantarem bem alto e que deixa as moscas meias burras, meias moles. Amávamos-nos em qualquer lado, sem pudores, medos ou vergonha, pois se Adão e Eva tiveram o paraíso, nós tivemos aquela pequena casa e dali, ninguém nos ia expulsar. Na piscina, no chuveiro, na cama ou na sala. Com a lareira acesa (fetiche) ou no sótão, em qualquer local pusemos por gestos e sons aquilo que os corações sentiam um pelo outro. Vivemos sem lei nem ordem, ele habituado a ter regras e horas para tudo, e eu, que tinha morrido se isso fizesse parar o tempo.
Os anos passaram e por muitas mais vezes voltámos à casinha no Alentejo mas nunca mais foi igual, nunca mais senti que o meu coração não ia aguentar de tanto amor por aquele homem, aguentar tanto amor correspondido. Hoje vejo que eu era pouco mais que uma criança, que sabia eu do amor? E essa inocência perdi-a mas ganhei mais, ganhei histórias felizes para contar, ganhei relatos hilariantes do que dois miúdos nus fazem numa casa sozinhos e, acima de tudo, reforcei a ideia de que os meus maiores tesouros são as minhas memórias, aquelas, que me entre tantas outras me lembram de uma casinha no Alentejo, onde um dia, eu fui muito feliz.
Liz
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