terça-feira, 2 de abril de 2013

O eterno namorado e a sua esposa

Ao sair de Lisboa fiz um voto de reflexão, em que prometi a mim mesma observar e reflectir mais do que falar pelos cotovelos, deixando-me envolver na folia da altura festiva. Se há coisa em que sou boa é a ler pessoas. Os maneirismos, o tom de voz, os olhares, o nervoso das mãos ou o tiques que cada um nem se dá conta que tem. Sou aquela pessoa que pensa que se não tem nada de valor para dizer então remete-se ao seu silencio, observando os devaneios verbais dos que se encontram à sua volta e, muitas vezes, chegando mais depressa à conclusão do que se debate do que os próprios intervenientes. E nestes quatro dias tive a oportunidade perfeita para por em pratica em prática estas minhas rudimentares técnicas de leitura do outro.

Eu tenho um primo, o eterno namorado, que namora com a sua eterna esposa. Porque que os trato assim? Passarei a explicar. Eles namoram desde os tempos da faculdade, o que pelas minhas contas, já deve ir para uns bons 10 anos. Do que sei dele, sempre foi um "galo da guarita": namora com todas e só casa com a mais bonita e foi esta rapariguinha de porte frágil e jeito tímido que pegou nele e, como todas nós mulheres, o evangelizou para ser um namorado sério (penso eu...) e para se deixar de putas e vinho verde como dose semanal de divertimento. Foi ela que o obrigou a acabar o curso, em que eram colegas, foi ela que o obrigou a ser um bom estudante ou nunca arranjaria trabalho, foi ela que no dia da formatura esteve orgulhosa do seu lado, mais orgulhosa dele do que de si mesma. Em suma, o eterno namorado encontrou não só a sua esposa como uma maezinha, o sonho de todos os homens. 

O namoro tornou-se sério e decidiram juntar os trapos e começar a dita vida a dois. Até aqui tudo certo não fosse um pequeno pormenor: o sonho dela é casar. Dela e dos pais dela que tendo naquele pedaço de gente a sua única filha, sonham investir num casamento à nortenha com comida, bebida e música à descrição. Até aqui tudo muito certo, visto eles até terem uma vida boa e estável, que lhes permite vestir com marcas caras e ter um belo topo de gama, portanto, a tal desculpa do casar sai caro aqui não se aplicaria, ou não fosse outro pequeno pormenor: ele foge do casamento como o chifrudo da cruz. 

De cada vez que o assunto é tocado è vê-lo arquear os olhos, eriçar os pelos dos braços e bufar como um touro! Justifica-se dizendo que a vida está boa do jeito que está e se mexerem estraga, e ela, pobrezita, encolhe os ombros rindo-se e alinha naquela conversa que lhe é visivelmente dolorosa. Não sinto por ela pena pois pena não se sente por ninguém mas sinto solidariedade, eu, que por pouco não me entreguei à vida que ela hoje tem, eu, que um dia me quero casar e do meu antigo parceiro só teria uma única coisa: um eterno namorado. 

Outro tema que desperta no rapaz raios e coriscos é a ideia de filhos, daquelas amostras de gente que mijam e cagam e dormem e que condicionam a vida solta e com poucas responsabilidades a que ele se dá ao luxo de viver. E ela desejosa de ver a sua casa e a sua vida virada do avesso pelas suas crias, crias que quer ter com o seu eterno namorado. O instinto maternal da pequena é quase palpável, exibindo ela uma paciência e um jeito meigo para com os sobrinhos que eu confesso ainda não ter criado em mim. Ao perguntar à mãe se os podia levar por uma noite, o eterno namorado responde um ruidoso "Deus me livre!" e ela, encolhe os ombros rindo-se e alinha naquela conversa. 

Estes dois puseram-me a pensar:

Até que ponto o amor que se tem pelo outro, o homem da nossa vida, nos dá o direito de abdicar de sonhos que trazemos connosco desde o berço? Seja o sonho de casar ou de ter filhos, ou o sonho de ser uma grande mulher de carreira e uma gestora internacional. Até que ponto, nos devemos manter acomodados ao amor da nossa vida e à vida que ele quer para si, quando nós sentimos que algo nos falta na nossa? Até que ponto, será mesmo o amor da nossa vida? E quem sou eu para colocar estas questões....eu, que um dia, me dispus a ser a esposa de alguém que não se dispus a ser mais do que o meu eterno namorado? Eu, que nem sei já se sirvo para isto da vida a dois. 


Liz

5 comentários:

  1. Estás a brincar.... um texto maior do que o outro!!!!

    ...a sério! ?

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  2. Mais um bom post de alguém que já viveu junto duas vezes e nunca casou porque a elas também era indiferente.

    A vida é feita de cedências e as pessoas escolhem as cedências que querem fazer. Essa tua prima prefere o namorido ao casar e aos filhos, pelo menos por enquanto... Um dia dá-lhe a marreca e finca o pé e é ver o primo em apuros. Porque o homem manda em casa mas a mulher manda no homem...

    Beijo

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    1. Agora é que vi a merda que escrevi...

      Vou reescrever!

      Mais um bom post. Agora a opinião de alguém que já viveu junto duas vezes e nunca casou porque a elas também era indiferente:

      A vida é feita de cedências e as pessoas escolhem as cedências que querem fazer. Essa tua prima prefere o namorido ao casar e aos filhos, pelo menos por enquanto... Um dia dá-lhe a marreca e finca o pé e é ver o primo em apuros. Porque o homem manda em casa mas a mulher manda no homem...

      Beijo

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    2. Ahaha eu percebi.te!! E sim, pode ser que o namarido um dia acorde e veja que ceder um pouco nao deve doer assim tanto.

      Acho que o drama do rapaz ta na "pressao" que sera para ele deixar de.morar com a.namorada e.passar a morar com a esposa

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