terça-feira, 2 de abril de 2013

Pronúncia do Norte

Passei esta Páscoa na terrinha, bem a norte do meu amado Tejo, num local onde posso fugir de tudo aquilo que me incomoda em Lisboa neste momento: a confusão, a falta de paciência generalizada e as memórias latentes a cada esquina da cidade do meu coração. Fui para a terra dos meus pais e que também adoptei um pouco como a minha pois é impossível não o ser quando ao chegar, o cheiro a campo e o ar puro que aqui não tenho, me enchem os pulmões daquilo que me tem faltado: ar fresco. 

Depois de uma agradável viagem de comboio (de que falarei mais tarde) cheguei a uma cidade-concelho ali para as beiras do Gerês. As casas de pedra que parecem resistir ao homem e ao tempo, o chão de blocos de granito toscos que fazem o carro balançar e põe à prova a melhor das embraiagens,  as pessoas castiças - muito brancas, muito rosadas e com um sorriso sempre posto - e a noção de que ali estou longe de tudo o que me constringe, aflige e me tira o sono. A casa da família é um palacete de 1913, feito de pedra do tecto até ao chão, com uma rica e trabalhada escadaria de madeira que sobe para os "quartos de dormir", cada um deles, maior que o meu "refeitório" ou sala de jantar. Chega a ser assustador dormir num quarto com aquela magnitude, de tectos altos e paredes robustas e ricamente decorado com mobílias em carvalho e arcas de pau santo, mas não podia ter dormido melhor no quatro dias que lá passei. Foi um sono santo, cansado e descansado em que juro não me ter mexido a noite toda. 

Tudo no Norte me cativa, desde as paisagens de tirar o folgo de tão belas e tão superiores à minha humana insignificância, às pessoas que chegam a pecar por excesso tal é a necessidade de agradar ao outro e fazê- lo sentir-se bem recebido, em casa. Lá o espírito não podia ser mais diferente do de Lisboa, onde até os bons dias caíram em desuso e a simpatia e empatia pelo outro soa tantas vezes forçada, porque tem que ser assim. Lá por cima eles sabem dar um sentido prático à expressão mi casa es su casa e quem entra na casa das gentes nortenhas pode sempre esperar um copo de vinho verde e uma fatia de pão de ló com queijo. Claro que má gente existe em todo o lado, mas pelo que a experiência me diz, por lá ficaram muitos dos bons corações deste país. Os feitios são fortes e os palavrões funcionam como vírgulas, o que me deixava boquiaberta com a tamanha criatividade na arte do insulto que estas palavrinhas feias adquirem lá por cima! Os cagões/convencidos são mal vistos e deles se quer distancia, os fentos/forretas são outros que tais e mulher que não saiba cuidar da sua casa, dos seus filhos e do seu trabalho é chamada de moura. O tempo frio e agreste endureceu geração atrás de geração tendo criado as gentes a que o meu tio gosta de chamar "raça filha da puta"! 

E a comida, não há zona neste país onde eu peque mais do à mesa nortenha! A carne sabe a carne e não a farinha de peixe, o bacalhau só precisa de água da fonte e azeite caseiro para ser o melhor dos peixes, os legumes sabem àquilo que são e não a objectos inanimados e as frutas, apanhadas da árvore, invadem a boca, o nariz, o corpo todo. Nesta minha ultima incursão culinária dei-me ao luxo de não me privar de nada e deixei completamente de lado toda e qualquer dieta! Comi arroz de pica no chão (galo caseiro) com grelos da horta, arroz de polvo condimentado com tomates caseiros, cabrito e vitela assados cujas carnes se esfumavam a cada dentada, entre tantos outros pratos que me deram uns redondos 2 kg, mas me deixaram consolada para o resto do ano. A água é pura e não sabe a canos ou cloro e só isso faz com que a comida ganhe qualidades quase mágicas, deixando-nos bem dispostos e num ânimo festeiro. 

Mas o que ainda gosto mais na "minha terra" é o facto de lá conseguir desligar como não faço em mais lado nenhum. Aqueles montes parecem filtros aos problemas e aos tormentos que em todo o lado me ocupam a mente e eu consigo, finalmente, descansar. Os montes muito verdes e de uma robustez inigualável fazem-me sentir pequena, ciente daquilo que sou, humana. O rio corre para onde tem que correr e passa por cima do que tiver que passar, pois o seu destino já está traçado à muito tempo. Os pássaros são Reis no céu e as corças e as cabras do monte são rainhas na terra. O tempo frio deixa-me alerta e o quente do lume/lareira relaxa os músculos. O ar entra e limpa corpo e alma da poluição a que a sujeitei e, em quatro dias, consegui o que não fui capaz em quatro meses: relaxar. 


Liz

8 comentários:

  1. Um dia vais reunir estes textos e publica-los :) lindo **

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  2. Foda-se... eu não vou ler isto!!

    faz-me um resumo!!!

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  3. Está lindissimo Liz! Uma das minhas grandes falhas, é conhecer muito mal o Norte do País. Ler-te fez-me ter ainda mais certeza que tenho que colmatar isso.

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    1. Força minha cara! Garanto que não vais vir de lá desiludida! :) **

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